quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Uma puta cachorrada


                Era uma bela tarde de domingo, um sol belo, azul, 17h, eu me preparava para uma despedida de uma amiga minha do Varginha. Já disse aqui que o Varginha ao qual me refiro não é a cidade Mineira, e sim ao Terminal Varginha. E essa minha amiga nos deixaria, iria, para além da ponte, como os moradores da região se referem àqueles que moram além da ponte do Socorro e que têm uma vida mais acessível.
                De qualquer forma a reunião de Silvinha seria além-ponte, num barzinho na região de Pinheiros. Mamão na roda pra mim, pois era só usufruir do trem.
                Terminei de me arrumar e estava saindo do prédio, mas não antes de ser abordado pelo porteiro.
- Fala Chicão – o porquê de Chicão eu jamais entenderei, pois seu nome real era Mário. – O que tem pra mim, ai, hoje?
- É quinchegô umcarpseor.
- Oi?
- Chegoun uma carta pseor. – disse mais pausadamente.
- Ah, tá! Uma carta pra mim. – assinei o recebimento da carta. Olhei era só uma conta de luz, só podia ser multa. – Chicão, faz o seguinte: eu tô saindo agora, tem como deixar a carta aqui pra eu pegar na volta?
- Teconsim. – não sei exatamente o que ele quis dizer, mas preferi apostar numa resposta afirmativa e segui meu caminho.
                O trem. Ah, o trem. Azar daquele que nunca teve a oportunidade de subir num dos vagões da CPTM, principalmente da linha 9 – Esmeralda. Uma linha de classe e garbo, devo dizer. Não há o que lhe falte naquela linha. Quer água? Pode comprar água de um ambulante. Está com fome? Pode comprar um “snack” (um lanchinho, pra quem não é muito versado no inglês) de um ambulante. Tá precisando renovar sua carteira de documentos? Pode comprar com um dos vários ambulantes dispostos nos vagões. Ali, meu amigo, não se passa aperto, não. E digo mais, até poesia você pode achar lá. Outro dia mesmo ouvi um versinho muito simpático que era assim:
“Olha ai pessoal carteira para documento
Ela protege, é barata e pode comprar sem sair do assento.
Senhores passageiros, a porta se abriu, a polícia surgiu, o vendedor sumiu.
Senhores passageiros, a porta fechou, o vendedor voltou”
                Não tem Clarisse Lispector que chegue a esse nível, francamente. Estupendo. Bravo (com a pronúncia de “brava”, falada como se estivesse com uma batata quente na boca ou então fazendo uma obturação na cadeira de um dentista).
Ding,dong.
“Próxima estação Pinheiros. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.”
                Desci na estação Pinheiros e logo fui bombardeado por pessoas altamente educadas, sem contar no maravilhoso perfume do rio ao lado. Desci algumas escadas, o bastante para me lembrarem de Stairway to Heaven do Led Zeppelin, mas finalmente cheguei às catracas e fui para o bar, que não era muito distante dali, graças à Deus, pois o calor era infernal e, não sei vocês, mas eu, no calor, tenho a sensação que quando chego a um lugar todos estão lindos, cheirosos, parecendo que se teletransportaram do banho pro lugar, enquanto eu chego parecendo uma porca dando cria. Sério, só o barbante da linguiça.
                Cheguei ao lugar e achei bem batuta. Avistei a mesa onde estava a minha amiga e já fui logo chegando junto com a galera. Alguns ali eu conhecia do Varginha e outros ali eu não conhecia. Preferi me sentar junto aos meus, não que eu tenha preconceito, é mais por uma questão de conforto mesmo.
                Logo veio uma garçonete me atender e eu entendi que ali se tratava de um restoran (restaurante) tradicionalíssimo português, afinal de contas a garçonete além de um buço vistoso, também apresentava aquele lenço florido nas madeixas.
- Oi, boa noite. Aqui vocês servem – resolvi brincar – uma “vacalhoada” daquelax? – tentei imitar o sotaque de nossos amigos lusos.
 Ela só me olhou de baixo a cima, suspirou e disparou:
- Não tá vendo que aqui é um bar-feminist-vegan-gluten-free-pet-friendly?
Juro por Deus, minina do céu! O que aquela moça tava falando ainda era português? Só tive coragem de dizer:
- Uma coca, então, por favor.
Outro suspiro:
- Só tem Pepsi.
- Pode ser moç... – me detive. – Pode ser.
                Meu Deus, mas onde é que a Silvinha foi marcar a despedida dela? Ana Carolina comia solta no som de fundo, enquanto todos ali se divertiam. Sugeriram de pedir uma porçãozinha, eu como tava mais por fora do que peixe fora d’água fiquei na minha e decidi que o que pedissem eu comeria. Pediram uns bolinhos, maravilha!
                Conversa vai e conversa vem daqui a pouco sinto um quentinho na minha perna, sinceramente, na hora eu gelei. Que merda poderia ser aquela. Vou olhando devagarinho para baixo, enquanto algumas pessoas riem, e vejo que um poodle estava terminando de mijar na minha perna. FILHA DA PUTA DE CACHORRO! Já levantei virado no Jiraya! O cachorro se afastou latindo pra mim. Quando eu vejo dois rapazes que vêm correndo em minha direção, agarram o cachorro no colo e ainda querendo discutir comigo.
                Eu achei aquilo de um tamanho disparate!
- Escutem aqui rapazinhos... – comecei eu a minha bronca. E essa foi a única coisa que eu consegui dizer antes de receber uma bofetada na cara de um dos meninos.
- Rapaz é o car$%& (irei poupá-los das palavras de baixo calão, meus amigos). Não está vendo que somos duas mulheres?
                Tive de esfregar meus olhos, confesso que tudo estava muito confuso pra mim, desde que eu adentrara aquele bar português. Passado o ocorrido a Silvinha veio falar comigo e me perguntou se eu estava bem.
- Olhe Silvinha, estou um pouco confuso. Gostei bastante aqui desse bar português e tal, mas acho que vou pra casa, não estou me sentindo muito bem.
- Mas que bar português o quê? Aqui é um bar-feminist-vegan-gluten-free-pet-friendly. – Lá vem aquelas palavras de novo, mas eu não aguentava mais não.
- Se aqui não é um bar português, então por quê a atendente tinha buço e um lenço na cabeça e aquelas saias rodadas?
                Silvinha apenas me disse que eu reparasse ao meu redor e então, como num passe de mágica, aquelas palavras se decodificaram pra mim. Mas nem um “ah” eu consegui dizer.
                Sentei de novo com a minha turma e um pouco consternado, a Ana Carolina era uma dica um pouco forte, mas ei, quem não curte uma Ana Carolina?
                Os bolinhos então chegaram a mesa, numa TV era possível ver o programa da Bela Gil sintonizado, todos foram se servindo e eu também! Estava faminto e depois de toda essa confusão eu queria mais era comer, mesmo.
                Peguei um dos bolinhos e dei uma mordida, no que eu juro pra vocês, se não era terra pura, tentaram fazer algo que se assemelhasse muito. Uma colega minha virou pra mim e disse:
- Não são demais esses bolinhos? Eu podia comer uma bacia deles.
Devolvi seu desejo com um sorriso amarelo, amarelo porque eu tinha engolido aquele naco de terra, senão era marrom mesmo. Mas não era possível, as pessoas estavam comendo terra e gostando disso. Eu ainda estava com a outra metade do meu bolinho na mão, disfarçadamente eu peguei um guardanapo e envolvi o resto daquela droga e o coloquei na mesa. Fui correndo tomar um gole da minha Pepsi. Cadê meu copo? Na confusão passaram a mão no meu copo. Eu queria chorar, essa que era a verdade? Mas onde já se viu, alguém da minha idade chorar por isso.
A despedida foi pra lá das 20h, o que pra um domingo é o equivalente a 4h de um sábado. Alguns já tinham se dissipado e outros ameaçavam a ir embora, a garçonete não-portuguesa limpava algumas mesas ao redor, o que na linguagem de bar é: vazem! E de fato foi o que fizemos, pagamos a conta e eu estava doido para ir pra casa tomar um banho e tirar aquele mijo de cachorro de mim. Normalmente eu até pegaria uma carona com Silvinha, mas agora ela pertencia a um outro bairro, já não atravessaria mais a ponte. Então tive de rumar a pé até ao metrô mesmo. Passei por uma rua um pouco deserta, mas sem problemas, o problema mesmo é o barulho que eu estava ouvindo atrás de mim. Eu andava o barulho vinha, eu parava e olhava pra trás e nada de barulho. E isso ia e ia e ia. Até que finalmente:
- Olha aqui! Não sei quem é, mas eu moro no Terminal Varginha!
                O fato de eu dizer aquilo fez com que o barulho cessasse de vez, eu não sei ao certo o que eu quis dizer com aquilo, mas o importante é que funcionou. Voltei a andar normalmente, quando sinto algo agarrar a minha perna, a perna que tinha sido mijada e pra minha surpresa era um outro cachorro que parecia estar no cio!
                Por que isso estava acontecendo comigo, Deus? 

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