quarta-feira, 1 de março de 2017

Você vai mudar!



Você vai mudar!
Ah, mas não adianta chorar, espernear e nem fazer beicinho. Não importa a sua idade, você irá mudar.
A mudança é necessária, a mudança é inevitável. Aliás, se não fosse a mudança (o que Darwin chama de Evolução) você ainda estaria batendo osso na pedra. Se com seus aborrecentes 16 anos ou com seus rabugentos 60, você ainda irá mudar, goste ou não.
E isso se deve por dois princípios bem básicos: a vida e a falta de vida. Não necessariamente a morte em si, mas pode acontecer.
Quando é o fator vida, eu me refiro a vida mesmo, que acontece, o dia a dia. Sinto muito se você acha que tem total e absolto controle do que acontece ao seu redor. Não, você só pode controlar a sua vida e olhe lá!
E quando é a falta de vida, é quando você deixa que outras pessoas tomem decisões por você, escolham o seu caminho, digam como você tem que viver a sua vida! O QUE É ABSURDO!
ATENÇÃO: se você é de fato um aborrecente ou um velhinho rabugento, não interprete este texto como: "Viu! Eu sabia! Eu avisei! Ninguém tem que dar pitaco na minha vida."
É importante escutar o que as pessoas têm a dizer, sim, você não é sozinho no mundo. Hello! O mundo não gira em torno do seu umbiguinho sujo!
Há situações na vida que nós lutamos, relutamos, literalmente batalhamos e você já percebeu que elas acabam acontecendo do mesmo jeito? Pois é, não cabia a você decidir nem que sim e nem que não.
Aprenda a conviver com a sua realidade. Aprenda a se aceitar. A aceitar o próximo! A RESPEITAR! Pare de achar que o mundo só lhe faz afrontas! Que você só sofre! Que isso só pode ser praga do seu vizinho.
Na na ni na não, isso só pode ser praga sua para você mesmo. E PIOR pro outro, coitado!
Pense nas situações da sua vida e reflita o quanto você já mudou. E saiba, vai mudar ainda muito mais. Só vai parar de mudar a hora que morrer. (E se você for espírita, assim como eu, sabe que nem quando morrer vai parar de mudar.)
Desperte para a vida, você verá como vale a pena.
Depois disso eu tenho uma pergunta:
E daí que seu filho quer fazer miçanga ao invés de cursar medicina? E daí que a sua irmã pegou o último pedaço de pizza que você queria? E daí que te xingaram no trânsito? E daí o que falam sobre você? E daí o status? E daí aquele parente chato que se gaba nas festas de família? E daí? Eu te pergunto, E DAÍ? Pare de reagir com a sua vida e comece a agir. Pois as mudanças podem ser positivas ou negativas, mas você e SÓ VOCÊ poderá direcionar pra que canto elas irão.
A vida, infelizmente é muito curta, não se arrependa, aprenda. Se você ainda está respirando, assim como aquele vasinho de planta esquecido na sua janela, meu amigo, você vai mudar ou a vida vai te mudar por você.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Roubo da Monalisa

                Jaccquin finalizava os preparativos para a grande noite. Suas mãos suavam um pouco e parte era por causa do terrível calor que fazia na capital parisiense. Mas o suor de Jaccquin era aquele suor frio, mesmo.
                Conferiu sua mala mais uma vez e então olhou pela janela do hotel e vislumbrou o seu destino o Museu do Louvre.
                No criado mudo do hotel uma garrafa meio vazia e um copo meio cheio de uísque. Desviou o olhar da paisagem e o voltou para o copo, o pegou e então deu um gole que acabou com toda a bebida. Aquilo pareceu ter um efeito tranquilizante e ao mesmo tempo passava mais confiança a Jaccquin, que olhava seu relógio, nervoso, pois a hora se aproximava.
                Vocês podem achar estranho a reação de um francês nervoso em relação ao Museu do Louvre e é claro que Jaccquin já estivera lá inúmeras vezes. Inclusive ele se lembrava da primeira vez em que fora levado ao Museu do Louvre, seu avô era um grande aficionado por arte e por toda a história francesa. Logo quando chegaram seu avô lhe disse uma frase que Jaccquin jamais esqueceu. E eu gostaria muito de poder lhes dizer, mas, infelizmente, eu não falo francês. De qualquer forma, isso não interessa.
                Para Jaccquin aquela não era apenas mais uma visita habitual ao Louvre, não senhores. Naquela noite ele iria roubar a La Gioconda, a Monalisa.
                Há algum tempo um numero privado ligara em seu celular. Era uma tarde ensolarada em Paris. O vento lambia as folhas das árvores e deixava um clima bem gostoso para quem estivesse na rua. Jaccquin andava admirando a paisagem ao redor até que despertou de seu transe com seu celular tocando. Atendeu e tudo o que pode ouvir foi um leve chiado até que então uma voz disse com certa urgência que necessitava conversar com Jaccquin, porém ninguém poderia saber dessa reunião.
ão perguntou sobre o que se tratava tudo isso porular, Jaccquin atendeu e tudo o que pode ouvir foi um leve chiado atDe certo Jaccquin não entendia o quê estava acontecendo, então perguntou qual era o motivo de tudo aquilo, pensou até mesmo ser um trote e pensou em desligar, porém do outro lado da linha ouviu algo que lhe impediu de desligar. Era a voz de sua mulher agora ao telefone, pediu que ele tivesse calma e que no momento certo tudo faria sentido, mas que ele precisava confiar nas instruções em que receberia a seguir. Logo a outra voz retornou à chamada e disse que se encontrassem numa cafeteria não muito distante dali, às exatas 14h34.
Claramente a hora deixara Jaccquin muito curioso, mas ele estava muito mais preocupado com o que estava acontecendo e no que sua esposa estava envolvida. Suspirou e então conferiu o seu relógio e percebeu que o horário já estava bem próximo e se quisesse chegar, segundo as instruções, teria que apertar um pouco o passo.
Começou a caminhar em direção à cafeteria onde encontraria com seu interlocutor misterioso. Muito embora caminhasse determinado, ia sem prestar muita atenção no caminho, estava distraído montando inúmeros cenários em sua cabeça. Eram tantos os cenários criados que ele esqueceu de prestar atenção naquele em que se encontrava. Pisou num cocô de cachorro. “Merd.”, pensou.
Foi pulando num pé só até uma parede, para que pudesse ver o estrago. Infelizmente, mais uma vez, prestou mais atenção à sola embostada do que ao caminho. Pela calçada vinha uma alegre ciclista com uma cestinha à frentes da bicicleta. Jaccquin e a jovem moça acabaram se trombando. O impacto não só derrubou Jaccquin, como fez com que ele caísse em uma possa d’água. Um “Me desculpe.” apressado e logo a jovem já estava em seu caminho novamente.
Aquilo já era um pouco demais para Jaccquin, que além de estar todo sujo, agora já estava oficialmente atrasado para o encontro.
A fúria que sentiu não permitiu que desviasse sua atenção para mais nada além de seu caminho. Foi caminhando com uma cara bem contrariada até a cafeteria. Parou em frente e então começou a olhar ao redor para ver se conseguia ver um rosto familiar, em especial de sua esposa. Não viu ninguém, então entrou no estabelecimento.
Sentou-se em uma mesa e percebeu que atraia alguns olhares devido ao seu estado pouco apresentável. Um casal de senhores pediu para mudarem de mesa devido ao odor que sentiam ao redor de Jaccquin, mas ele não se importou. A verdade é que seu pensamento voltou novamente para sua esposa e sua segurança.
Um garçom veio lhe atender, o incômodo era visível em seu rosto. Jaccquin pediu um café, preto e com açúcar. Pediu com um sorriso amarelo, o garçom o mediu de cima a baixo e então se retirou.
Um minuto se passou até o retorno do garçom com seu café, sentiu-se agradecido, pois um pouco de cafeína poderia ajudar a colocar seus pensamentos em ordem. Tomou um gole de café e fez apenas o que podia fazer: esperar.
Ele estava sentado defronte para uma janela, enquanto dava um segundo gole em seu café, a claridade a sua frente fora tapada por uma sombra.
- Você está atrasado.
- Como é? – disse Jaccquin repousando a xícara de café na mesa.
- Você está atrasado. Marcamos às 14h34 e você está atrasado 10 minutos.
- Meu senhor, veja bem... – Jaccquin foi interrompido.
- Escute, não temos muito tempo. Logo descobrirão onde estamos e definitivamente nós não queremos ser vistos juntos, para o seu próprio bem. No bolso esquerdo de sua jaqueta você irá encontrar as próximas instruções do que deverá fazer.
              Jaccquin logo levou a mão ao bolso e então tirou um rolinho de papel. Ficou atônito. Como? Como ele estava em posse de algo e não percebera e ainda mais de algo que antes não estava ali.
- Ei, mas, mas... Espere. Como? Como você...? Quem é você?
- Isso não vem ao caso agora, tudo o que você precisa saber estão nessas páginas. Guarde-as e não as mostre para ninguém, ouviu?
                Jaccquin só conseguia piscar seus grandes olhos enquanto ainda estava boquiaberto.
- Nós não queríamos que as coisas fossem dessa maneira, mas temos certeza que logo você irá compreender. Contamos com a sua ajuda e o seu papel é de extrema importância para nós.
                O homem que chegara sem qualquer tipo de apresentação e nem se dera ao trabalho de, sequer, se sentar, então olhou pela janela, deteve-se alguns instantes na praça onde se localizava a cafeteria e então se voltou a Jaccquin.
- Nosso tempo é curto, prometo que compreenderá tudo o que lhe entregamos. A sua esposa...
- A minha esposa! O que vocês fizeram com ela? Ela está bem? Vamos, me diga.
- Sim, sua esposa está bem como você mesmo pode ter notado.
- Do que você está falando? Não sei sobre a minha esposa, apenas que ela me disse para estar aqui. Era você ao telefone? – Jaccquin tentou recuperar a voz ao telefone, parecia ser um pouco mais grave do que a voz daquele sujeito, mas bem que poderia ser ele.
- É claro que sabe, afinal de contas ela mesma lhe entregou esta mensagem quando esbarrou com você na bicicleta.
                Jaccquin ficou em choque. Não seria possível, como ele não reconhecera a própria esposa? É claro, ele estava um pouco distraído, mas não. Não deixaria de reconhecer a mulher com quem dividia uma vida. Ou será que sim? Tudo estava muito confuso e não fazia sentido.
- Temo que nosso tempo aqui tenha se esgotado. Contamos com você.
                Sem dizer qualquer outra palavra, o homem que estivera ali, se fora. Deixando apenas Jaccquin, seu café e sua descoberta carta.
                O garçom então ressurgiu com bule na mão e perguntou se Jaccquin aceitaria mais café. Ainda atordoado Jaccquin estendeu a mão para o bule e pediu que o garçom o deixasse ali mesmo. Sem entender o que estava se passando, o garçom atendeu o pedido de Jaccquin, aproveitou que ele era o único cliente e então disse à sua colega que iria tirar sua pausa.
                Jaccquin se serviu com mais café e ficou olhando o rolo de papel em sua mão. Colocou-o sobre a mesa e o ficou encarando um bom tempo. Ele ainda estava com problemas para aceitar o que estava acontecendo, afinal de contas, ele não sabia o que estava acontecendo.
                Depois de mais uma xícara de café, sentiu que a cafeína começava a fazer seu efeito. Pegou o rolo em suas mãos e então o abriu.
                “Jaccquin, meu querido. Como eu gostaria que as coisas fossem diferentes, meu amor. Mas infelizmente chegou a hora.
                Esperávamos que este dia não chegasse ou pelo menos que não chegasse tão sem prévio aviso. Porém não há mais como lhe poupar. Meu nome não é Simòne, me chamo Gabrielle. Faço parte de uma, bem, digamos assim, organização que há muito tempo vêm cuidando dos interesses da França. Nosso dever é proteger nossos segredos mais antigos de nossos rivais.
                Há muito tempo impedimos que a verdadeira história de nossa civilização caiam em mãos erradas. Seu avô, um grande mentor para mim, entendia bem o que estava em jogo e por isso me colocou em seu caminho. Infelizmente nem todos ao redor de nossos agentes são envolvidos em nossa organização, ou pelo menos até que a hora certa chegue. Seu avô gostaria muito de poder ter lhe contado tudo, mas não podemos nos revelar para ninguém.
                Sinto muito você descobrir desta forma, tanto sobre mim, quanto sobre seu avô, porém saiba que ele apenas queria o seu bem, assim como o de nossa sociedade.
                Mesmo não podendo lhe contar sobre sua verdadeira ocupação, seu avô assegurou que você fosse envolvido, caso esse dia chegasse. E assim a sua última vontade se cumpre.
                Sei que você deve ter muitas perguntas agora, porém tudo será explicado, eu prometo. Mas nós precisamos de você, Jaccquin. A França precisa de você. Eu preciso de você.
                Descobrimos recentemente que uma antiga organização rival está planejando o roubo da Monalisa. Entendo que isso pode lhe deixar confuso sobre o seu envolvimento. Porém este quadro contém parte essencial de nossa história e de nossa linhagem, não podemos deixar que isso seja destruído. Nossa Gioconda possui um grande segredo e que deve permanecer um segredo.
                Jaccquin, precisamos que você roube a Monalisa antes deles. Sabemos que você consegue e acima de tudo precisamos que você, como diretor da segurança, o faça. Jamais suspeitariam de você andando aos arredores do Louvre tão inesperadamente.
                Temos a informação de que nossos rivais agirão em breve, então está tudo preparado para que o roubo aconteça amanhã à noite. Você ficará hospedado em um hotel próximo ao Louvre e assim que retornar com a real pintura tudo estará bem novamente e então poderemos agir a partir daí. No quarto do hotel você encontrará todo o equipamento necessário para que transporte o quadro em segurança. Lembre-se, é um quadro muito frágil, então seu transporte deve ser delicado, apesar de rápido. Sei que o que pedimos é muito.
                No lugar, uma réplica deverá ser colocada. Você também a encontrará junto ao restante do material.
Por favor, Jaccquin. Precisamos de você.”
Absolutamente os olhos de Jaccquin não conseguiam crer no que acabaram de ler. Pelo menos mais duas vezes releu a carta. No final o nome do Hotel e o quarto foram revelados. Pensou em rir, aquilo não poderia se passar de nada além de uma brincadeira de mau gosto. Mas admitiu para si que até as brincadeiras de mau gosto vão até um certo limite.
Serviu-se de mais café e mais uma vez lera a carta. Dessa vez com a raiva de um homem traído, traído por sua esposa, traído por seu avô, que cuidara dele. Não, aquilo não era verdade. Mas, e se fosse?
Ora, essa era muito boa. De Jaccquin, o chefe de segurança do Louvre, um trabalhador qualquer, ele fora para Jaccquin, o agente duplo e nem sequer parecia ter uma chance de escolha. Sentiu como se seu destino já estivesse selado.
Pagou o café e saiu daquele lugar. Precisava de ar. Sim, um pouco de ar lhe faria bem. Então rumou para o apartamento que dividia com Simòne, exato, Simòne, sua esposa, uma professora do ginásio e não Gabrielle, uma agente.
Chegou ao apartamento e por um momento retomou a ideia daquilo tudo ser uma brincadeira. Ele abriria a porta e Simòne estaria lá. São e salva. Eles até ririam de tudo aquilo. Porém quando abriu a porta apenas Antoin, o gato, estava lá. Nada de Simòne.
Jogou-se no sofá da sala, queria dormir um pouco, talvez tudo aquilo não passasse de um sonho, mas Antoin, subiu em suas costas e começou a se ajeitar para deitar. Aquilo pareceu real demais a Jaccquin para acreditar estar num sonho. Levantou de um supetão derrubando Antoin, que posicionou suas orelhas rajadas para trás, decidiu que precisava de um drink, não era muito de beber, mas as pessoas faziam isso nessas situações. Achou uma garrafa de um uísque e começou a bebê-lo no gargalo.
A noite chegava e Jaccquin ainda encontrava-se no sofá. Antoin miou reivindicando seu jantar. Jaccquin o olhou e o gato encarou de volta. “Ora essa! Mas até o gato deu pra falar o que eu tenho que fazer, agora!”, pensou . Então deixou a garrafa na mesa de centro e foi dar de comer ao gato. Ele mesmo não estava muito para comida, na verdade sentia-se um pouco enjoado.
Achou melhor tomar um banho, afinal de contas caíra numa poça d’água e ainda sentia-se sujo por ter pisado em coco de cachorro.
No banho começou a refletir. “Roubar o Louvre? A Monalisa?”, “Por quê eu, mon die?”, “Não, não me importo, estou farto disso. Eles que se resolvam, eu não vou colocar a minha segurança em risco, não senhor.”, “Mas e ai o que me acontece se eu não fizer?”, “O que aconteceria com Simòne?”, “Não, Gabrielle, pelo jeito ela pode se virar muito bem sem mim.”, “Merd. Merd. Merd.”, “Bom, como chefe da segurança não deve ser muito difícil de roubar a Monalisa.”, “Mas o que é que eu estou dizendo?”, “Bom, me parece muito grave o que pode acontecer pelo tom da situação.”
- Eu vou roubar a Monalisa! – não percebeu, mas falara isso em voz alta. Olhou ao redor e não achou qualquer outro olhar que não fosse o de Antoin. Encarou o gato e então repetiu:
- Antoin, eu vou roubar a Monalisa.
                E é assim que Jaccquin, meus caros, se encontra nesse quarto de hotel. Agora vocês podem entender que seu nervosismo não é à toa. A carta de sua esposa também dizia o horário que o roubo deveria ser feito, pois tudo deveria ser sincronizado, como num balé.
                A valise que deixaram para Jaccquin parecia normal ao olho nú, mas seu conteúdo estava cheio de artimanhas preparadas para um roubo. Naquela noite deixou  hotel de valise na mão. Muito embora ninguém reparasse nele, sentia-se vigiado.
                Chegou ao Louvre e não teve problemas para entrar, afinal de contas ele era o Chefe da Segurança. Alguns dos funcionários estranharam sua presença, não só pelo horário, mas também por ser um dia de sua folga. Ele então disse que estava fazendo uma inspeção a pedido do curador do museu. Jaccquin trabalhava já há um bom tempo para que alguém duvidasse de suas intenções. Sempre fora funcionário exemplar.
               Foi à central de câmeras e o encarregado da noite era Marlon, um senhor que adorava vinho e uma boa história. Jaccquin gostava muito de Marlon, inclusive já fora em sua casa e jantara com sua esposa. E agora ele estava ali, pensando num modo de mentir ao colega para que ele liberasse a sala. A desculpa que arranjou foi que tivera ordens do próprio curador para que uma investigação na ala egípcia fosse conduzida aquela noite. Marlon reclamou um pouco e perguntou sobre o que era, mas Jaccquin disse que apenas precisava que Marlon ficasse na ala para reforçar a segurança. E lá se foi Marlon, mas não sem antes notar que Jaccquin possuía uma mala. Achou aquilo um pouco estranho, mas não comentou nada.
                Marlon perguntou se Jaccquin não viria e ele disse que apenas precisava checar as câmeras. Observou então em um dos painéis que um de seus colegas fazia ronda na ala onde se encontrava a Monalisa. “Ótimo, terei de mentir de novo.”, pensou.
                Jaccquin foi em direção ao encontro de sua bela dama com quem teria de fugir naquela noite. Chegando lá encontrou com Anselme, um jovem guarda, pelo menos esse não seria tão difícil de enganar, afinal Anselme estava lá há poucos meses. Jaccquin deu a mesma desculpa a Anselme e pediu que ele se dirigisse a ala egípcia.
                E então finalmente eram apenas ele e a Gioconda. Ultrapassou a barreira inicial que protege que as pessoas se aproximem do quadro e ali começou a trabalhar para a remoção do vidro de proteção. Enquanto estava na sala de controle, Jaccquin desligara os alarmes do museu. Ele, por um momento, pensou na dimensão de como estaria em apuros, caso fosse pego. Mas voltou ao trabalho. Tudo estava indo maravilhosamente bem, ele havia conseguido remover e embalar o quadro original e estava pronto para colocar a cópia no lugar, quando foi surpreendido por um grito, era Anselme que havia retornado para busca-lo, a pedido de Marlon.
                Anselme então correu em direção a Jaccquin, porém este já estava de pé e preparando para correr. Anselme não entendia porque nenhum alarme estava soando ou então porquê as portas não estavam descendo, ele corria ao máximo para alcançar Jaccquin, mas o Louvre era grande e Jaccquin o conhecia como a palma de sua mão. Não foi difícil fazer com que Anselme fosse despistado em seus grandes corredores.
                Que merda, pensou Jaccquin. Estava tudo indo tão bem, por quê aquele tapado tinha que voltar? Isso já não tinha mais importância, tudo o que ele precisava fazer era correr o mais depressa que conseguia. Agora mesmo é que não podia se dar ao luxo de ser pego, caso contrário como explicaria aquela situação?
                A saída estava próxima, Jaccquin já podia vê-la. Sentiu um alívio que foi interrompido pelas sirenes do museu. O susto fez com que vacilasse um pouco, mas recuperou-se logo e correu mais ainda. Correu até sentir o vento em seu rosto. Seus passos irromperam pelo pátio externo do Louvre, deixando para traz não só o Louvre, mas o Jaccquin que ele próprio conhecera. Ele sabia que precisaria ir ao Hotel, mas como? Ele fora descoberto.
                Continuou correndo sem pensar até que uma van, quase o atropelando, para em sua frente. As portas laterais se abrem e Jaccquin é abduzido para dentro da Van. Caiu sentado no meio da van, enquanto recuperava seu fôlego deparou seu olhar no do sujeito que estivera com ele na cafeteria no dia anterior. Continuou olhando em volta e para sua surpresa ela estava lá, Simóne. Sentiu alívio, mas também raiva. Que ficaram suprimidos por seus suspiros e sugadas de ar.
                Simòne então foi em direção a ele e Jaccquin por um momento achou que ela ajudaria ele a levantar, mas não, ela foi em direção ao tubo que Jaccquin carregava. Na van era possível ver uma mesa improvisada, onde logo o tubo foi colocado e aberto.
                Jaccquin até duvidou se estavam em movimento, tamanha era a tranquilidade da viagem dentro da van.
                O sujeito desconhecido logo se juntou a Simòne e os dois abriram a Monalisa na mesa. Simòne então começou a revirar a bolsa que trazia consigo e de dentro tirou uma caneta, um limão e um canivete.
                Ela então cortou o limão em quatro gomos e foi em direção a pintura. Jaccquin que já tinha recuperado boa parte do fôlego, tentou impedi-la. Uma coisa era roubar a Monalisa para proteger um segredo, outra seria destruí-la.
                O sujeito então afastou Jaccquin, que insistia em não deixar que fizessem nada com a pintura. Outro dois sujeitos dentro da van precisaram segurar Jaccquin.
- Calma Jac, prometo que vai dar tudo certo.
                Simòne então pegou um gomo do limão e começou a passar no quadro, Jaccquin se contorcia ao ver a cena. Depois de passar o limão por toda a superfície, Simòne pegou a caneta. Os dois sujeitos precisaram fazer mais força para segurar Jaccquin, pois ele achou que ela iria riscar a pintura. Ao invés disso, quando ouviu um click viu uma luz avermelhada saindo da ponta da caneta. Simòne então começou a passar a luz por toda a extensão da pintura, como se a estivesse escaneando.  O ato repetido mais algumas vezes antes de Simòne explodir:
- NÃO! NÃO! NÃO! Onde está o quadro Jaccquin? Você nos trouxe a cópia e deixou o verdadeiro quadro no museu!
                Jaccquin, que ainda segurado por dois capangas e parecesse mais calmo também explodiu.
- VOCÊ É MALUCA, MULHER? É claro que não confundi, afinal de contas eu só tive tempo de guardar a pintura antes que um guarda aparecesse. Certamente essa é a Monalisa.
- Não, não pode ser Jaccquin! A verdadeira Monalisa contém uma mensagem e uma das maneiras de ler essa mensagem é fazendo exatamente o que eu fiz. Apenas uma cópia não teria essa mensagem.
- Vai ver o seu limão que está estragado. Eu sei lá. Estou bem farto já desses joguinhos e quero as respostas que me foram prometidas e quero já.
                Simòne pareceu ignorar Jaccquin, voltou à pintura e tentou novamente, olhou pro sujeito que conversou com Jaccquin e disse:
- Chev, o que está acontecendo? Não pode ser, estava tudo de acordo com o plano. Isso não é possível.
                Simòne e Chev passaram algum tempo analisando a pintura. Finalmente chegaram a conclusão de que aquela também era uma cópia. E se aquela era uma cópia isso só pode significar uma coisa: A Monalisa, a verdadeira Monalisa, havia sido roubada. Mas por quem?


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Esquadrão Geriátrico

                Ivo levantou-se aquela manhã e não olhou o despertador, não o olhou porque não possuía um, mas pensou que se tivesse poderia olhar e não perder o horário do café da manhã na casa de repouso. Ivo ficava era muito fulo da vida, pra falar a verdade, pois quando chegava ao refeitório toda a camada boa do mingau de aveia já tinha sido pega por seus outros colegas. Aquilo despertava uma ira peculiar em Ivo.
                Chegando atrasado, seu único conforto era conseguir sentar mais reservado nas mesas do refeitório e Sônia, uma das cozinheiras sempre guardava um biscoitinho integral para ele. Apesar que não pudesse mastigar mais com toda a sua capacidade, Ivo, ainda assim, gostava da sensação de comer algo mais sólido. Terminou de tomar seu café tardio e foi ao pátio. Alguma coisa no ar estava diferente, ele não sabia ao certo o que, talvez fosse a Emengarda, todos sabiam das capacidades “odorísticas” de Emengarda. Tossiu. Se sentiu bem. Em seguida tossiu novamente. Maldito biscoito de fibras.
                Ivo sentia-se particularmente sozinho, muito embora alguns de seus melhores amigos, se é que podia chama-los assim, também estavam na mesma casa de repouso. Resolveu ir ao salão de jogos e tentar uma conversa com Plínio.
                O salão de jogos, o que dizer? Ivo não era muito dado ao convívio social, mas era imbatível no xadrez. Por trás daqueles óclinhos ainda estava uma mente ativa. Bem ativa, admitiu para si mesmo naquela hora. Avistou Plínio, com uma certa sofreguidão, puxou uma cadeira e sentou ao seu lado.
                Plínio servia de juiz para uma competição entre as tetéias daquela casa de repouso. Berenice e Célia encontravam-se numa competição para ver quem tricotava um cachecol mais rápido. E, devo dizer, que a disputa era acirrada, pois no passo que Berenice agitava suas agulhas, Célia fazia o mesmo, vez ou outra passando as linhas sobre as cabeças para poder desenrolar a linha no chão. Plínio estava com um relógio de bolso em suas mãos e deveria estar cronometrando para ver quem terminaria o cachecol mais longo em menos tempo, porém infelizmente nem Célia e nem Berenice saberiam, pois Plínio pegara no sono. Não foi até que Ivo chegasse ao seu lado e chamasse por ele que tinha acordado. Com um sonoro ronco, desses que a gente dá quando meio acorda e meio ainda está dormindo, Ivo aos poucos conseguia a atenção de Plínio.
                Berenice levantou de um salto e veio em nossa direção:
- Bonito, que bonito, não? Dormindo de novo Plínio? Poxa, assim como vamos saber quem ganhou a competição?
                Nesse momento Célia veio andando o mais rápido que a idade lhe permitiu, de cachecol na mão e toda sorridente para Plínio. Algumas senhoras do recinto tinham um pouco de inveja de Célia, pois sua filha mais velha era dentista e arranjou uma dentadura e tanto para mãe. Há boatos que Célia uma vez no pátio sorriu para um possível pretendente e a luz do sol refletiu tão forte nos olhos do senhor que ele caiu do banco em que sentava, foi levado à enfermaria, mas nunca mais foi visto. Mas chega de boatos.
- E então Plínio? Quem é que ganhou a competição? – disse Célia entredentes, não por vontade, mas a dentadura, esqueci de dizer, era um pouco grande para sua boca.
- Ora meninas, vamos! As duas fizeram um ótimo trabalho! O que você acha Ivo? Me ajude aqui, meu rapaz. Estou numa boca de sinuca.
                Célia virou com seu sorriso, um pouco assustador, para Ivo e Berenice o olhou com um olhar inquisitivo.
- Por quê não damos um empate aqui? – disse Ivo.
                Berenice bufou e teve que levar as mãos rapidamente à boca para segurar sua dentadura no lugar. Célia continuou sorrindo, mas aquilo não queria dizer nada na verdade, pois afinal de contas, ela estava sempre sorrindo.
- Pois eu digo isto, um empate! É o que é. – disse Plínio.
                Contrariada, Berenice deixou o recinto, batendo o pé e a bengala, o mais audível que pôde, em forma de protesto. Célia pareceu conformada. Foi dar um abraço de agradecimento em Plínio, ao abaixar travou sua coluna e precisou da ajuda dos enfermeiros para que voltasse a se colocar de volta no lugar.
                Agora que a tal da competição tivera um fim Ivo finalmente teria a atenção de Plínio.
- Escuta Plínio, estava querendo lhe falar, será que podemos levar um lero?
- Mas é claro, meu chapa. Qual é a jogada?
- Bem, não há uma jogada. Pelo menos não ainda. Merda... O que eu quero dizer é, você não se cansa dessa vida em que levamos? Eu queria mais, eu já tive mais. Entende?
                Plínio fitava Ivo com atenção. Tomou um longo e profundo suspiro, deu uma leve borrifada no aparelho de asma. Tossiu. E virou-se para Ivo.
- Olhe Ivo, é claro que eu tenho saudades da nossa época dourada. Mas isso é coisa de outro tempo. Não passa um dia que eu não me lembre dos bons tempos, mas a minha agora é essa. Aqui, essa casa de repouso.
- Mas você não sente... um comichão?
- Ivo, meu rapaz, aqui se alguém não sentir um comichão que seja, significa que já partimos pro outro lado. – Plínio riu, mas teve um acesso de tosse logo em seguida.
- Ora, pare de troçar comigo Plínio. Sei que você sabe ao que eu me refiro. Aquela inquietude, vamos, me ajude aqui. – disse Ivo, provocando com um olhar.
- É claro que eu sei do que você se refere, mas eu já lhe disse. O meu tempo já passou, deixa agora pra essa molecada ai. – Plínio guardou o relógio no bolso, deu mais um suspiro. – Ivo, e além do mais o que é que você espera? Estamos cercados de médicos e enfermeiras, jamais nos deixariam sair.
                Ivo ficou com a voz de Plínio martelando sua cabeça, mas se recusava a aceitar aquilo como único destino. Mesmo não estando em seu ápice Ivo então começou a maquinar um plano em sua cabeça. Veriam, ele estava velho, mas não morto.
                Já no dia seguinte começou a colocar seu plano em ação. Ivo teria de começar pela parte mais difícil. Toda manhã, após o café, uma das enfermeiras ia em seu quarto para lhe levar a medicação, mas ela não ia embora até que o paciente  a tomasse toda. Ivo dependia de um remédio para tratar especificamente de sua ansiedade, não mais para Ivo, mas ele sabia que quem o tomasse seria acometido por um sono muito forte e ai estava seu passaporte para fora daquele lugar.  Ivo apenas tomava sua medicação dia sim, dia não. Nos dias que não ingeria, fingia engolir o remédio, porém o colocava embaixo da sua língua. Não que precisasse de muito trabalho para esconder o comprimido, pois a enfermeira não parecia preocupada, mas achou melhor tomar precaução. Quando decidiu que já tinha comprimidos suficientes, partiu para a fase 2. Ao invés de comer os biscoitinhos que Sônia lhe dava, começou a guarda-los, uns dois ou três bastariam.
                Num dos dias foi à cozinha e pediu por um copo de leite, disse que estava sentindo uma fraqueza e que um copo de leite lhe cairia bem. Assim a cozinheira foi até a dispensa e pegou o leite e lhe serviu. Ivo disse que levaria ao quarto e iria tentar repousar um pouco. A cozinheira quis chamar uma enfermeira, mas Ivo recusou, disse que um copo de leite e um pouco de sono lhe fariam bem. Teve de conter sua animação, mas ele sabia que aquele era o dia, ou melhor, a noite.
                Chegando em seu quarto Ivo pegou as bolachinhas e começou a tentar recheá-las com seus comprimidos para ansiedade e ia tentando dar liga com o leite. Não ficara perfeito, mas estava dando certo. Ivo até se permitiu dar uma risadinha, como se fosse uma criança aprontando alguma peripécia.
                Perfeito! Olhou para sua obra e comeu um dos biscoitinhos que não usara.
                Quando chegava a noite a casa de repouso era apenas guardada por um vigia na portaria, enquanto na base da enfermaria ficavam duas enfermeiras de plantão.
                Ivo abriu a porta de seu quarto e inspirou fundo. Passou pela enfermaria e a enfermeira chefe de plantão, como um cão farejador, levantou seu olhar e se posicionou:
- Oi Seu Ivo. Pois não? Posso ajudar o senhor?
Ivo então começou a gemer e disse:
- Uh, minha filha. Gases, sabe? Quando você chegar nessa idade, olha, uh... Você vai ver. Preciso de um pouco de ar, pensei ir ao pátio, aaaai... Não estou conseguindo ficar no quarto, sabe? Melhor jogar ao vento.
                A enfermeira chefe trocou um olhar com a sua colega de turno que lhe respondeu com um olhar de Ok. A passagem de Ivo tinha sido permitida, foi gemendo até metade do corredor que passava a enfermaria. Até chegar no quarto de Plínio.
                Um ronco forte dominava o recinto. Ivo até assustou de começo, mas não tinha tempo pra hesitações. Apenas aproximou-se da cama e acordou Plínio, colocou a mão sobre a sua boca para que não gritasse. Uma atitude impensada por parte de Ivo, pois afinal, poderia ter colocado todo seu plano em risco e ter perdido um amigo, caso Plínio tivesse sofrido um ataque do coração com o susto. Felizmente nada disso acontecera.
- Acorda Plínio! Acorda meu chapa! É hoje que vamos estourar a boca do balão.
- Tá louco, Ivo? Que coisa é essa de vir me acordar essa hora? Não tomou seu Lorax, não?
- Plínio, você não está entendendo. Essa noite vamos curtir, de verdade.
- Bobagem, Ivo. Você tem tomado seu remédio pra ansiedade? Você me parece um pouco mais eufórico além do normal, vou chamar a enfermeira e...
- NÃO! Plínio, você não entende. Eu bolei um plano e hoje vamos sair desse lugar.
                Ivo então contou o que fizera nos últimos dias e finalizou:
- E agora, só falta eu dar esse biscoito pro vigia, ele nem vai saber o que o atingiu. – disse animado.
- Olhe Ivo, tudo isso me parece demais, não acho que o vigia vai cair tão fácil nessa.
- Bem, eu preciso tentar, ainda que eu falhe, meu arrependimento será esse e não sobre não ter feito nada.
                Plínio coçou a cabeça por um momento e finalmente disse:
- Está bem, está bem! Mas olha lá no que você vai se meter! Eu vou junto com você, mas tenho uma condição.
- Feito, qualquer coisa vale a pena para escapar daqui.
                Ivo então disse a Plínio que ficasse no quarto até que desse o sinal de que estava tudo bem. Dirigiu-se até a portaria e foi de encontro ao vigia.
- Boa noite. – o vigia ergueu seu olhar. Parecia um pouco consternado, pois nunca antes tivera qualquer interação com algum idoso ali.
- Boa noite. O senhor não deveria estar no quarto?
- Pois deveria, mas a enfermeira chefe me concedeu a gentileza de andar um pouco. Gases, sabe como é. Um dia você vai chegar na minha idade, aí meu rapaz, se prepare. – disse Ivo, o mais simpático que pôde.
                O vigia pareceu momentaneamente satisfeito com a resposta Ivo percebeu que ali era sua chance.
- Poxa, mas aqui é bem quieto, não?
- É, aqui eu geralmente fico sozinho até que os vigias da manhã cheguem, mas eu tenho meu radinho aqui, que me faz companhia.
                De fato tinha mesmo, o rádio sintonizado na Gazeta FM tocando as mais pedidas.
- Eu estou com fome. – constatou Ivo. – Aceita um biscoitinho?
                Antes que o vigia pudesse recusar Ivo já avançara para cima do vigia com o seu biscoito batizado, enquanto tirou um outro do bolso, sem alterações. Deu uma mordida e começou a comer. Para que sua farsa não fosse descoberta, soltou alguns puns.
                Para que não parecesse má educação o vigia pegou o biscoito que Ivo lhe dera e começara a comer junto, afinal sua mãe lhe ensinara bem a respeitar os mais velhos.
                Ivo arregalava os olhos a cada mordida que o vigia dava no biscoito, enquanto Ivo o entretia sobre um causo de uma chapa de pulmão da época em que fora fumante.
                Encarando os olhos do vigia, Ivo podia ver que piscavam cada vez mais. Não tem coisa que dá mais sono que uma boa história de exame e alguns remédios para dormir. O vigia tentava reagir, mas a última coisa que pôde ver antes de apagar foi o sorriso de Ivo.
                Assim que o seu carcereiro adormecera não perdeu tempo e pegou o molho de chaves em cima da mesa, então Ivo foi para o quarto de Plínio. Tirou o roupão que vestia por cima de uma calça marrom e uma camisa xadrez. Plínio não estava por baixo, não. Também trajava seu melhor colete de lã.
- Eu lhe disse que conseguiria Plínio, agora vamos!
- Espere, mas ainda tem a minha condição. – Ivo quase a esquecera. – Temos de passar para pegar o Inácio para ir conosco.
- Puta merda Plínio! Você só pode estar de sacanagem!
                Inácio já não podia mais andar e dependia de uma cadeira de rodas.
- Pode me dizer como pretende fazer com o Inácio, Plínio? – disse Ivo tentando conter ao máximo seus nervos.
- Escute, eu não posso deixar o pobrezinho e afinal de contas ele fazia parte da nossa gangue, Ivo! A gente deve isso a ele.
- Está bem! Mas se ele nos atrapalhar, juro que o deixo para trás.
                Ivo e Plínio irromperam os corredores da casa de repouso guiando Inácio em sua cadeira de rodas. Célia, que era vizinha de quarto de Inácio, ouviu toda a barulheira e surgiu à porta. Então viu Plínio e Ivo com Inácio.
- O que vocês, rapazes, estão fazendo fora da cama? E por quê estão com o Inácio? Inácio, você está bem, querido? Alguém pode me explicar? – despejou Célia, suas palavras pela dentadura. Plínio então veio à frente.
- Celinha, olhe, não temos tempo! Mas estamos indo para a melhor noite de nossas vidas! Venha. Venha conosco.
- Ora, mas que bobagens são essas? O que está...
- Escutem, estamos ficando sem tempo. Logo mais a enfermeira chefe irá suspeitar que eu não voltei para o meu quarto. É agora ou nunca. Partimos ou então vou sozinho em minha jornada.
                Sem entender nada Célia sorriu, infelizmente ali ninguém pôde dizer se estava animada ou preocupada, de fato. Mas colocou o primeiro vestido que achou e acompanhou os três.

                E assim Ivo, Plínio, Inácio e Célia passaram pelo vigia que dormia sonoramente e saíram porta a fora da casa de repouso.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Uma puta cachorrada


                Era uma bela tarde de domingo, um sol belo, azul, 17h, eu me preparava para uma despedida de uma amiga minha do Varginha. Já disse aqui que o Varginha ao qual me refiro não é a cidade Mineira, e sim ao Terminal Varginha. E essa minha amiga nos deixaria, iria, para além da ponte, como os moradores da região se referem àqueles que moram além da ponte do Socorro e que têm uma vida mais acessível.
                De qualquer forma a reunião de Silvinha seria além-ponte, num barzinho na região de Pinheiros. Mamão na roda pra mim, pois era só usufruir do trem.
                Terminei de me arrumar e estava saindo do prédio, mas não antes de ser abordado pelo porteiro.
- Fala Chicão – o porquê de Chicão eu jamais entenderei, pois seu nome real era Mário. – O que tem pra mim, ai, hoje?
- É quinchegô umcarpseor.
- Oi?
- Chegoun uma carta pseor. – disse mais pausadamente.
- Ah, tá! Uma carta pra mim. – assinei o recebimento da carta. Olhei era só uma conta de luz, só podia ser multa. – Chicão, faz o seguinte: eu tô saindo agora, tem como deixar a carta aqui pra eu pegar na volta?
- Teconsim. – não sei exatamente o que ele quis dizer, mas preferi apostar numa resposta afirmativa e segui meu caminho.
                O trem. Ah, o trem. Azar daquele que nunca teve a oportunidade de subir num dos vagões da CPTM, principalmente da linha 9 – Esmeralda. Uma linha de classe e garbo, devo dizer. Não há o que lhe falte naquela linha. Quer água? Pode comprar água de um ambulante. Está com fome? Pode comprar um “snack” (um lanchinho, pra quem não é muito versado no inglês) de um ambulante. Tá precisando renovar sua carteira de documentos? Pode comprar com um dos vários ambulantes dispostos nos vagões. Ali, meu amigo, não se passa aperto, não. E digo mais, até poesia você pode achar lá. Outro dia mesmo ouvi um versinho muito simpático que era assim:
“Olha ai pessoal carteira para documento
Ela protege, é barata e pode comprar sem sair do assento.
Senhores passageiros, a porta se abriu, a polícia surgiu, o vendedor sumiu.
Senhores passageiros, a porta fechou, o vendedor voltou”
                Não tem Clarisse Lispector que chegue a esse nível, francamente. Estupendo. Bravo (com a pronúncia de “brava”, falada como se estivesse com uma batata quente na boca ou então fazendo uma obturação na cadeira de um dentista).
Ding,dong.
“Próxima estação Pinheiros. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.”
                Desci na estação Pinheiros e logo fui bombardeado por pessoas altamente educadas, sem contar no maravilhoso perfume do rio ao lado. Desci algumas escadas, o bastante para me lembrarem de Stairway to Heaven do Led Zeppelin, mas finalmente cheguei às catracas e fui para o bar, que não era muito distante dali, graças à Deus, pois o calor era infernal e, não sei vocês, mas eu, no calor, tenho a sensação que quando chego a um lugar todos estão lindos, cheirosos, parecendo que se teletransportaram do banho pro lugar, enquanto eu chego parecendo uma porca dando cria. Sério, só o barbante da linguiça.
                Cheguei ao lugar e achei bem batuta. Avistei a mesa onde estava a minha amiga e já fui logo chegando junto com a galera. Alguns ali eu conhecia do Varginha e outros ali eu não conhecia. Preferi me sentar junto aos meus, não que eu tenha preconceito, é mais por uma questão de conforto mesmo.
                Logo veio uma garçonete me atender e eu entendi que ali se tratava de um restoran (restaurante) tradicionalíssimo português, afinal de contas a garçonete além de um buço vistoso, também apresentava aquele lenço florido nas madeixas.
- Oi, boa noite. Aqui vocês servem – resolvi brincar – uma “vacalhoada” daquelax? – tentei imitar o sotaque de nossos amigos lusos.
 Ela só me olhou de baixo a cima, suspirou e disparou:
- Não tá vendo que aqui é um bar-feminist-vegan-gluten-free-pet-friendly?
Juro por Deus, minina do céu! O que aquela moça tava falando ainda era português? Só tive coragem de dizer:
- Uma coca, então, por favor.
Outro suspiro:
- Só tem Pepsi.
- Pode ser moç... – me detive. – Pode ser.
                Meu Deus, mas onde é que a Silvinha foi marcar a despedida dela? Ana Carolina comia solta no som de fundo, enquanto todos ali se divertiam. Sugeriram de pedir uma porçãozinha, eu como tava mais por fora do que peixe fora d’água fiquei na minha e decidi que o que pedissem eu comeria. Pediram uns bolinhos, maravilha!
                Conversa vai e conversa vem daqui a pouco sinto um quentinho na minha perna, sinceramente, na hora eu gelei. Que merda poderia ser aquela. Vou olhando devagarinho para baixo, enquanto algumas pessoas riem, e vejo que um poodle estava terminando de mijar na minha perna. FILHA DA PUTA DE CACHORRO! Já levantei virado no Jiraya! O cachorro se afastou latindo pra mim. Quando eu vejo dois rapazes que vêm correndo em minha direção, agarram o cachorro no colo e ainda querendo discutir comigo.
                Eu achei aquilo de um tamanho disparate!
- Escutem aqui rapazinhos... – comecei eu a minha bronca. E essa foi a única coisa que eu consegui dizer antes de receber uma bofetada na cara de um dos meninos.
- Rapaz é o car$%& (irei poupá-los das palavras de baixo calão, meus amigos). Não está vendo que somos duas mulheres?
                Tive de esfregar meus olhos, confesso que tudo estava muito confuso pra mim, desde que eu adentrara aquele bar português. Passado o ocorrido a Silvinha veio falar comigo e me perguntou se eu estava bem.
- Olhe Silvinha, estou um pouco confuso. Gostei bastante aqui desse bar português e tal, mas acho que vou pra casa, não estou me sentindo muito bem.
- Mas que bar português o quê? Aqui é um bar-feminist-vegan-gluten-free-pet-friendly. – Lá vem aquelas palavras de novo, mas eu não aguentava mais não.
- Se aqui não é um bar português, então por quê a atendente tinha buço e um lenço na cabeça e aquelas saias rodadas?
                Silvinha apenas me disse que eu reparasse ao meu redor e então, como num passe de mágica, aquelas palavras se decodificaram pra mim. Mas nem um “ah” eu consegui dizer.
                Sentei de novo com a minha turma e um pouco consternado, a Ana Carolina era uma dica um pouco forte, mas ei, quem não curte uma Ana Carolina?
                Os bolinhos então chegaram a mesa, numa TV era possível ver o programa da Bela Gil sintonizado, todos foram se servindo e eu também! Estava faminto e depois de toda essa confusão eu queria mais era comer, mesmo.
                Peguei um dos bolinhos e dei uma mordida, no que eu juro pra vocês, se não era terra pura, tentaram fazer algo que se assemelhasse muito. Uma colega minha virou pra mim e disse:
- Não são demais esses bolinhos? Eu podia comer uma bacia deles.
Devolvi seu desejo com um sorriso amarelo, amarelo porque eu tinha engolido aquele naco de terra, senão era marrom mesmo. Mas não era possível, as pessoas estavam comendo terra e gostando disso. Eu ainda estava com a outra metade do meu bolinho na mão, disfarçadamente eu peguei um guardanapo e envolvi o resto daquela droga e o coloquei na mesa. Fui correndo tomar um gole da minha Pepsi. Cadê meu copo? Na confusão passaram a mão no meu copo. Eu queria chorar, essa que era a verdade? Mas onde já se viu, alguém da minha idade chorar por isso.
A despedida foi pra lá das 20h, o que pra um domingo é o equivalente a 4h de um sábado. Alguns já tinham se dissipado e outros ameaçavam a ir embora, a garçonete não-portuguesa limpava algumas mesas ao redor, o que na linguagem de bar é: vazem! E de fato foi o que fizemos, pagamos a conta e eu estava doido para ir pra casa tomar um banho e tirar aquele mijo de cachorro de mim. Normalmente eu até pegaria uma carona com Silvinha, mas agora ela pertencia a um outro bairro, já não atravessaria mais a ponte. Então tive de rumar a pé até ao metrô mesmo. Passei por uma rua um pouco deserta, mas sem problemas, o problema mesmo é o barulho que eu estava ouvindo atrás de mim. Eu andava o barulho vinha, eu parava e olhava pra trás e nada de barulho. E isso ia e ia e ia. Até que finalmente:
- Olha aqui! Não sei quem é, mas eu moro no Terminal Varginha!
                O fato de eu dizer aquilo fez com que o barulho cessasse de vez, eu não sei ao certo o que eu quis dizer com aquilo, mas o importante é que funcionou. Voltei a andar normalmente, quando sinto algo agarrar a minha perna, a perna que tinha sido mijada e pra minha surpresa era um outro cachorro que parecia estar no cio!
                Por que isso estava acontecendo comigo, Deus? 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

10 formas de passar seu tempo em um banheiro público



Mais uma lista que eu escrevi aos 12 anos de idade e resgatei e resolvi compartilhar com vocês!



1 – Grite desesperadamente por socorro, até que alguém pergunte se esta tudo bem e então diga que seu cocô não quer sair.
2 – Quando alguém for secar as mãos, passe na frente dela e fique por um bom tempo.
3 – Finja espionar a pessoa do lado (caso seja mictório).
4 – Entre numa cabine e depois saia e diga bem alto para que todos escutem: “Putz, que águinha mais refrescante essa. Muito boa!”.
5 – Após sair de uma cabine, aborde a primeira pessoa que ver e diga que nunca teve uma caganeira tão forte como a que teve e diga detalhes nojentos.
6 – Coloque uma placa de “Consultório” na porta de uma cabine e fique lá com a porta entreaberta, para quem entrar diga: “O Doutor saiu. Quer deixar recado?” ou “Consultório… boa tarde em que posso ajudá-lo?”.
7 – Entre numa cabine e comece a gritar: “Isso, não pare! Continue! Desse Jeito!”.
8 – Entre numa cabine, sente-se na privada em posição de índio, com a porta aberta e coloque uma placa, dizendo: “Pessoa meditando, por favor silêncio.” E faça barulhos estranhos.
9 – Na porta do banheiro pergunte às pessoas: “Você têm reserva?”.
E por último, mas não menos importante…
10 – Leve um purificador de ar para o banheiro, quando as pessoas saírem da cabine, jogue-o dentro da cabine e diga à pessoa que acabou de sair e para quem quiser ouvir que estava quase morrendo com o mau cheiro.

12 formas de irritar seu psicólogo



Uma pequena lista que eu escrevi aos 12 anos de idade e resgatei e resolvi compartilhar com vocês!

Fiquem, agora, com 12 FORMAS DE IRRITAR SEU PSICÓLOGO

Quando for às consultas com seu psicólogo e estiver com vontade de incomodá-lo, use estas técnicas:

1 - Diga que ouve vozes (com uma cara séria). Quando lhe perguntarem o motivo ou com qual frequência isso acontece, diga: "Toda vez que eu atendo ao telefone".

2 - Quando for à sua primeira consulta diga que não possui problema algum e que seus amigos fadas e duendes até o aconselharam a nem ir nessa consulta.

3 - Após solucionar um caso e encontrarem uma solução, diga que agora está tudo bem, então vire-se para o lado e diga: "Tudo resolvido, certo Frank?". Insista que esta pessoa existe.

4 - Diga que vê pessoas mortas, caso pedirem-lhe um exemplo , diga: "Ontem por exemplo, quando fui ao enterro do meu tio avô Ernesto". (tia, tia avó, primo, quem você quiser matar.)

5 - Invente palavras malucas e ao conversar com seu psicólogo, use-as em vez de seu vocabulário normal. Exemplo: "Ontem eu estava tão gnork que splotrok".

6 - Caso você for adolescente, diga estar achando virar um alienígena, porque pontinhos verdes aparecem do nada em seu rosto.

7 - Com feição de paranoico e assustado diga coisas do tipo: "Ele virá me pegar". Quando lhe perguntarem quem, diga: "Meu pai depois da consulta". (Se quiser coloque as frases no plural).

8 - Tire fotos fingindo estar abraçando alguém ou fingindo que está com alguém e mostre as fotos ao seu psicólogo, dizendo os nomes dos seus amigos "invisíveis".

9 - Diga que pode prever as coisas, diga que pode ver em sua mente tudo o que irá acontecer no dia de ontem, e insista.

10 - Dependendo da hora de sua consulta, coloque seu celular para tocar no meio dela, antes do celular tocar diga que prevê as coisas e diga que seu celular irá tocar em "por exemplo, 1 minuto" ou "por exemplo, às duas da tarde".

11 - Quando seu psicólogo estiver tratando de algo sério, faça caretas estranhas e diga que espíritos estão tentando entrar em contato com você.

12 - Quando lhe pedirem atenção ou dirigirem-se à você, diga: "(O seu nome, "João") não está mais entre nós, agora eu (invente um nome estranho, "Zitron") estou no comando de seu corpo". Ou então "Ele está fora de área, tente novamente mais tarde ou deixe seu recado após o sinal". Faça o barulho do sinal e após isso diga: "Gravando mensagem".

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Contos Inacabados: O Projeto X


O dia começou calmo na Cidade Maravilhosa. Eram 6h e já se podia ver movimento nas praias. O Sol apareceu com toda a sua exuberância e deixava aos poucos o dia mais claro e mais colorido.
                Alguns saiam de suas casas para trabalhar, outros faziam caminhadas. Os mais afortunados tomavam café da manhã em  seus terraços e contemplavam a linda praia de Copacabana.
                É apenas mais um dia normal no Rio de Janeiro. Ou era para ser apenas mais um dia normal.
                Antes que se pudesse dar conta a cidade já estava de pé, pessoas andando para lá e para cá. Pais e Mães deixando seus filhos nas escolas e correndo para seus trabalhos. Eram tempos difíceis.
                Carla estava no caminho da escola com seu filho Júlio, enquanto o filho estava ouvindo música em seus fones, Carla alternava seu olhar entre seu telefone com a sua agenda e o trânsito.
- Puta que pariu! Mal começou o dia e já temos esse engarrafamento. – esbravejou Carla para ninguém em particular.
                O filho apenas lhe deu um olhar pelo canto e voltou a mexer no celular, alternando entre todas as suas redes sociais.
                O trânsito seguiu mais um pouco adiante e Carla estava muito agitada, até que entrou numa rua para poder desviar um pouco de todo o congestionamento.
                Finalmente chegaram à escola.
- Ei, não vá saindo assim não, cadê o meu beijo? – Júlio já estava para fechar a porta do carro quando a mãe cobrou a atenção do filho que, revirando os olhos, voltou para dentro do carro e deu um beijo com má vontade no rosto da mãe.
                Júlio estava para sair novamente do carro, porém congelou. Na verdade todos à volta ficaram perplexos quando uma sombra começou a sobrevoar o céu da cidade.
                Todos agora pararam o que estavam fazendo e olhavam sem acreditar para o céu, alguns choravam, outros entraram em desespero. Carla não podia acreditar, mas sabia o que aquilo significava. Não era possível.
                Nesse momento naves sobrevoavam o céu da cidade. Grandes naves esféricas, negras como o piche, com cúpulas redondas e círculos verde limão que serviam para o controle de entrada e saída de ar.
                Enquanto centenas dessas naves sobrevoavam o céu Carla teve apenas um impulso: mandou que o filho fechasse a porta do carro e saiu arrancando.
- Não, não! QUE MERDA! Eles não podem fazer isso com a gente! ELES PROMETERAM! Prometeram que iriam nos dar mais tempo! – Carla guiava o carro como se estivesse numa corrida, e talvez estivesse.
- Mãe, que porra é essa? O que tá acontecendo? – Júlio estava confuso e assustado, nunca antes havia visto a mãe assim. Sabia que por conta de seu trabalho sua mãe sempre estava sob constante pressão e estresse, mas Júlio conseguia ver o pânico no rosto de Carla.
                Carla continuou olhando vidrada para frente enquanto pegava a estrada para sair da cidade. Precisava alcançar a Fronteira o mais rápido possível.
                Infelizmente muitos tiveram a mesma ideia. As Fronteiras eram grandes muros de aço que dividiam um Estado do outro, isolando-os e deixando-os quase sem contato. Poucos podiam atravessar esses muros, apenas aqueles que trabalhavam para o governo.
                Conseguir uma passagem para outro Estado era extremamente raro e apenas em ocasiões muito específicas, alguns duvidavam até de que isso pudesse realmente existir, pois viveram toda uma vida e nunca conheceram alguém que sequer tivesse chegado perto das Fronteiras.
                Essa medida foi necessária após a Grande Depressão, como era chamado o evento que destruiu o mundo como conhecemos.
Carla tentou se aproximar o mais quanto mais pôde da Fronteira que dividia Rio de Janeiro e São Paulo. Júlio saindo de um transe volta a gritar para mãe:
- MÃE, POR FAVOR, O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – mas a mãe estava em seu próprio transe, na verdade estava presa em seu pior pesadelo.
                Carla chegou a um ponto onde não era mais possível seguir de carro, apesar do céu enegrecido com as naves ainda era possível enxergar através dos faróis dos carros abandonados. Carla tirou o cinto e gritou para que seu filho corresse junto a ela.
                Multidões tentavam fazer o mesmo que Carla, desesperados.
                Durante o caminho encontraram diversas pessoas que se machucaram tentando chegar à Fronteira, a cidade gritava por misericórdia, mas Carla não, ela sabia que teria uma chance. Afinal ela trabalhava para o Governo, “A porra do Governo que se dizia tão justo, tão preocupado, e agora estava fazendo isso com todos.”, pensava ela.
                Júlio já não estava conseguindo correr tão bem quanto começara, seu peito doía e sentia fortes ânsias, precisou parar para respirar.
- JÚLIO! Não, não, por favor, não pare de correr, precisamos chegar à Fronteira. – Carla olhou para seu filho e por um momento não viu o adolescente que já não conversava mais com ela, não viu o adolescente que sentia vergonha de dar um beijo na mãe, não. Viu um Júlio criança, que fazia desenhos para que a sua mãe pudesse colocar na geladeira. Viu seu garotinho. Carla não pensou duas vezes, pegou o filho no colo e continuou a correr.
                Passavam por pessoas implorando por ajuda, desviavam de obstáculos no caminho deixados por outras pessoas, enfrentavam o forte calor que agora se fazia, devido ao abafamento causado pelas naves.
                A Fronteira estava perto, era só isso o que ela conseguia pensar! Iriam fugir, poderiam trocar de nomes, identidades. Carla poderia arranjar até um emprego simples e continuarem com as suas vidas. Havia esperança de um amanhã melhor, ou pelo menos de um amanhã.
                A Fronteira estava apenas a alguns metros agora, porém algo estava errado. Algo estava muito errado.  A multidão que então corria para alcançar a Fronteira parecia apenas se conglomerar ao redor dela. Carla não podia entender o que estava acontecendo.
                Quando chegou perto o suficiente pôde então notar o motivo de ninguém ir adiante. Um grande abismo que antes era uma estrada dividia a população e a Fronteira.
                Pessoas gritavam e se lamuriavam, mas nada do que pudessem fazer iria fazer com que eles conseguissem chegar ao outro lado. Pais e seus filhos, idosos, crianças, deficientes, podia-se encontrar todo o tipo de pessoa à margem do abismo.
                Alguns casais mais velhos se juntaram e faziam uma espécie de cerimônia, uma despedida. Talvez um agradecimento por terem chegado tão longe em suas vidas, por terem tido a oportunidade de poderem viver tanto e aproveitar suas vidas. Aos poucos, um por um, foram se jogando da margem do abismo e adentrando a escuridão para o desconhecido. Para outro lado.
                O grito da multidão foi interrompido por alarmes e luzes vermelhas que piscavam e viam das naves paradas no céu.
                As partes de baixo das grandes bolas pretas se abriram e inúmeros canos saiam de lá, canos grossos e que se espalhavam por todos os cantos. Nesse momento pareciam grandes polvos gigantes, e que ironia, era assim que Carla e seus colegas costumavam chamar as naves de exterminação.
                Carla olhava fixamente para as naves, enquanto abraçava seu filho que chorava e soluçava. E só teve tempo de gritar:
- Eu te amo, filho! Me desculpe. – os alarmes cessaram e por algum momento todos tiveram uma ponta de esperança.
                O hino nacional agora ressoava, bradando em todas as direções, enquanto uma fumaça preta tomava conta de toda a cidade.
                Carla se agarrou ao filho enquanto a fumaça ia grudando em seus corpos. Uma vez que a fumaça atingia a pele fiava grudada, como uma gosma, impossível de ser removida. Quanto mais se tentava tirar, parecia que melhor adesão tinha a gosma preta.
                Era para ter sido apenas mais um dia tranquilo na Cidade Maravilhosa, era. Mas agora ela estava oficialmente eliminada do projeto.


                O Rio de Janeiro já não fazia mais parte do mapa. 

[conto a ser finalizado]


[ou não]