terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Galhada Sobrenatural

Ivonilde era uma cartomante de araque. Desde pequena aprendera com sua mãe a aplicar pequenos golpes em nome do sobrenatural para a sua sobrevivência. Ainda criança já sabia dizer o que o coração de um adulto desejava ouvir. Aprendeu as previsibilidades e macetes que faziam com que todos caíssem em seu papo espiritual.
Quando era adolescente sua mãe a levava para o centro da cidade, fantasiada de cigana. Instruiu que a filha treinasse o sotaque paraguaio mais fajuto que pôde, pois isso passava certa credibilidade. Alguém que mora numa mesma cidade que você, talvez só de te olhar, saiba que você é um pobre, ferrado da vida. Mas alguém de fora conferia um ar de mistério, pois como poderia aquela estrangeira saber tanto sobre a sua vida?
E assim Ivonilde ia levando a vida, de golpe em golpe. Era verdade que muito embora não tivesse ido muito longe com os estudos e muito menos ambicionara fazer qualquer faculdade, gostava muito do assunto. Estudava o significado das cartas. Estudou desde os experimentos das antigas mesas giratórias, muito famosas. Estudou sobre tabuleiros ouija. E ficava atenta para qualquer novidade que pudesse surgir. Decidiu que a sua faculdade seria a vida, a própria e a alheia.
Ivonilde se pegou tendo esses devaneios e lembranças que a fizeram chegar onde estava hoje. Desde seus vinte e poucos anos passou a atender como Madame Petra Cassandra. Com o dinheirinho que juntou ao longo do tempo, até conseguiu alugar um espacinho no centro da cidade e fazer uma casa esotérica.
Fazia desde velas paraa banhos, chás, que chamava de poções, simpatias e patuás e, claro, oferecia seu atendimento às pobres e desesperadas almas que vinham ao seu socorro. Não havia meios que Madame Petra Cassandra não conhecesse para contatar o outro lado. Búzios, tarot cigano, tarot celta, bolas de cristal, leituras de mão, borras do café e do chá entre muitas outras mais. Aquilo tornara-se um jogo para ela. Sabia todos os significados possíveis para combinações de símbolos.
Quando completou 30 anos, já tinha certa estabilidade financeira. Esse campo do esoterismo rendia um vida sem luxo, porém confortável a Ivonilde. Ah, como gostaria que sua mãezinha estivesse viva para vê-la agora.
Num belo dia, quando o movimento da loja estava bem pequeno, estava muito entediada. Resolveu tirar a própria sorte. Eram raros tais momentos, pois apesar do respeito que tinha pelas forças sobrenaturais, nunca fora uma porta-voz oficial, sabia que o que fazia era, no fundo, pura engambelação. Viu em seu destino um futuro bastante próspero, uma herança talvez, uma tia distante deixando uma pequena fortuna, ou mesmo quem sabe ganhar na loteria. Riu de si mesma e riu pelas circunstâncias. Desde a morte de sua mãe ela era sozinha no mundo. O que a levou à próxima carta: a promessa de um grande amor em sua vida. Um homem alto, moreno, forte, protetor. Até sentiu o coração acelerar, mas sentiu vergonha de si mesma por cair em seu próprio truque.
Dali dezoito anos Ivonilde estava completando 12 anos de casada. Mas ao invés de seu príncipe chegar num cavalo branco, parece que veio num jegue mesmo. Barroco, ruim com ele e pior sem. Ivonilde conheceu José Luiz 'Barroco” Esteves na região de sua loja. Alguns meses depois que tinha virado as cartas para si mesma, Barroco chegara ao bairro com suas obras de santos, anjos, Jesus, Marias, entre outras imagens adoradas. Ganhou o apelido de Barroco por conta de seu estilo artístico, obras tão feias e deformadas quanto as do próprio período barroco. Era tudo tenebroso. Mas ele em si tinha um charme inegável, parecia conhecer muito sobre artes, ser muito culto e inclusive saber muito sobre a vida num geral.
Ah, pobre Ivonilde, se ao menos suas cartas a houvessem alertado, ela jamais teria deixado se levar.
Barroco foi fazer um reconhecimento de território quando entrou na loja da grande Madame Petra Cassandra. Quis fazer uma consulta, alegava estar passando por muita dor, devido ao recente falecimento de sua esposa. Tudo teatro, que Ivonilde comprou ingresso e reassistiu até conhecer amargamente aos bastidores.
Barroco, o que dizer daquele encanto de pessoa que fora um dia? Hoje estava mais para maldição. Ivonilde levava uma vida boa até conhecer o traste, mas agora já estava na metade de sua vida e o que poderia fazer? Comercialmente juntos conseguiam ter uma vida boa, mas o problema não era esse. O problema estava no casamento. Se é que se podia chamar aquilo de casamento.
Barroco não passava de um galinha, que gastava boa parte de seu dinheiro e às vezes até mesmo o de Ivonilde, com bebidas, jogos e outras mulheres e quem sabe com mais o quê. Ivonilde achou que já era bastante calejada quando conheceu Barroco, é claro que ele era um homem de bem, pensou ela à época. Mas a vida sempre nos espera com surpresas.
As brigas do casal tornaram-se homéricas e muito conhecidas no bairro. Era um tal de maldição disso pra cá e um tal de tá amarrado pra lá.
Ivonilde jogava sua maldição, Barroco se brindava com sua religiosidade, deixando tudo nas mãos do Divino, dizendo que a esposa queimaria no inferno.
Dona Clotilde, uma senhora já aposentada, de língua afiada e olhos biônicos e um ouvido que era capaz até de ouvir apito de cachorro, sempre se divertia muito com as brigas dos dois. Era assunto que rendia em suas reuniões com as outras amigas aposentadas durante o cházinho da tarde.
Quando Dona Clotilde começava com seu habitual: “Menina...”, todos já sabiam o que vinha pela frente e ficavam em polvorosa em saber o que a D. Clotilde chamava de novidades, mas é mais conhecido como fofoca.
Num certo dia D. Clotilde iria receber suas amigas em casa para mostrar seus novos trabalhos em patchwork. A ideia era chamar as amigas, conversar um pouco e tentar empurrar algum de seus trabalhos goela a baixo das colegas. Vendia suas peças caríssimas a custo de uma pose de vítima que sempre se encontrava. Era sozinha, o marido já havia morrido, mas mesmo vivo nunca prestara para muito. Agora ela tinha que dar um jeito de se virar e as amigas sempre acabavam comprando alguma coisa, não porque gostavam, mas D. Clotilde considerava quase como ofensa pessoal se você fosse em sua casa e ela lhe mostrasse algo e você não comprasse.
Foi nessa tarde que Lourdes, uma das amigas de Clotilde, olhava os trabalhos da amiga sem muito interesse. Parecia abatida e distante.
- Que é isso Lourdes? Não vai prestar atenção, flor?
Lourdes acordou de seu estupor, pediu desculpas e se concentrou para tentar manter sua atenção, mas era notável sua dificuldade. Quando a reunião chegara ao fim Clotilde chamou Lourdes de lado e pediu que ficasse mais um pouco. Embora Clotilde tivesse um interesse muito específico nessas reuniões, ela também se preocupava com as amigas e Lourdes, tadinha, não parecia nada bem.
Era sabido de todas ali na roda de amigas que a filha de Lourdes recentemente ficara viúva. O marido era taxista e se envolvera num acidente de trânsito que levou à sua morte. Todas as “meninas”, Clotilde inclusive, se preocuparam. Pois Matilde, a filha, ficara viúva aos 40 anos de idade e com duas crianças para criar. Matilde fazia o que podia, era professora estadual, além de ter uma rotina dura, não ganhava muito. E Lourdes estava fazendo o que estava ao seu alcance para ajudar, mas via que a filha tinha mudado, estava obscura. Chorava todas as noites pelo marido. Era muito desesperador.
- Como você está indo, menina? Como tá a Tildinha? - perguntou Clotilde.
- Ah, Clô, sabe como é, né? Estamos tentando levar da melhor forma possível, mas estou tão preocupada com a Tilda. Ela não anda muito bem do juízo e estou tentando dar uma força com as crianças, mas eu também não tenho o mesmo pique de antes. Foi um choque para todos nós e eu não consigo imaginar pelo quê ela esteja passando. - disse Lourdes com lágrimas aos olhos.
- Calma, minha amiga, com o tempo as coisas se acertam. Ainda é tudo muito recente e vocês têm sido maravilhosos, todos vocês. Sabe que pode contar comigo, não é? Eu não tenho muito a oferecer, mas sempre tenho um ombro amigo e uma boa xícara de chá. - este comentário fez a amiga dar um sorrisinho de gratidão.
- Sabe, Clô, eu estava pensando aqui. Você acha as histórias sobre aquela Ivonilde verdadeiras?
- Olha, sei sim que ela me parece um ser desfrutável, mas não sei se todas aquelas histórias que o Luis fala são verdade e...
- Não, Clô. Sobre ela ser cartomante. Conseguir conversar com aqueles que já fizeram a passagem.
- Lourdes, minha querida, você não pode estar falando sério, está?
- Eu não sei mais a que recorrer, sei que pode parecer bobagem, mas acho que isso poderia ajudar a Tilda.
- Eu não sei, não Lurdinha, isso não me cheira bem. Ainda mais com a Ivonilde. Madame Petra Cassandra. Rá! Me engana que eu gosto.
- Ai, Clô... - Lourdes não conseguiu terminar a frase, pois pegou no choro. Clotilde não sabia como agir. A vontade da amiga era, no mínimo, inusitada. Evangélica de carteirinha, nunca vira Lourdes se dar a essas coisas. Mas a dor é algo que muda a gente, Clotilde sabia disso e respeitava a dor da amiga.
- Lurdinha! Ei, Lurdinha, olhe aqui! Eu penso que devemos fazer de tudo para vermos o bem daqueles que amamos e, bem, se você acha que isso possa trazer paz à sua família, faça! Eu te passo o endereço da loja daquela... - Clotilde achou melhor se interromper. Não era hora de minar com as esperanças da amiga.
Lourdes ficara extremamente grata a Clotilde. Sabia da desaprovação da amiga em relação a Ivonilde, mas mal aquilo não poderia causar.
E assim foi. Lourdes conversou com a filha, que rejeitou a ideia. Ficou enfurecida. A mãe estava ficando louca, desde quando acreditava nessas histórias de araque? Falar com os mortos. Aquilo era maluquice, heresia! A mãe disse que só queria ajudar e por isso pensou na ideia. Rubens partira muito repentinamente, não houvera tempo para despedida, talvez isso trouxesse um pouco de paz e encerramento para Tilda. Mas a filha não mostrava nenhum sinal de ceder. Até que finalmente foi vencida pelo cansaço. Ela também não aguentava mais tanto pesar e concordou com a mãe em dar UMA CHANCE, uma única chance. Uau, aquilo realmente alegrara Lourdes.
Combinaram de ir num sábado, já estava tudo combinado até com Clotilde que ficaria de olho nas crianças para que elas pudessem ir.
Pegaram o metrô em direção ao centro da cidade, a loja ficava bem próxima à estação que precisariam descer. Tilda estava muito nervosa e ansiosa. Achava aquilo uma bobagem, mas ter de lidar com a situação não era fácil. Repreendia-se cada momento em que se permitia ter uma ponta de esperança que ia conseguir falar com o falecido.
Chegaram à loja e não tiveram dificuldade em identificar, já que D. Clotilde dera bastante detalhes. Logo avistaram a Loja do Barroco e quase em frente a casa esotérica de Madame Petra Cassandra. Entraram na loja seguidas de um “prililim” do sininho da porta. Mal terminaram de entrar e foram acolhidas por uma nuvem de fumaça e logo ouviram música, se tratava de Além do Olhar de Ivo Pessoa. Madame Petra Cassandra fazia uma entrada triunfal no recinto.
- Sechan befindas filhas do destch... - nessa hora em que Madame abria os olhos para fitar aqueles que chegavam à loja ela parou de falar. - Ah, são só vocês!
Ivonilde desceu do trono que era movimentado a controle remoto e foi desligar a máquina de fumaça e a música.
- Olhem, se vieram aqui por causa dos boatos daquela velha da Clotilde, sugiro que deem meia-volta e sumam. - Ivonilde começou a arrumar algumas coisas nas prateleiras, dando as costas às duas, deixando visível somente seu turbante e as costas de sua capa escarlate.
- Viu, mãe, eu falei pra senhora que isso era uma má ideia! Vamos embora logo daqui.
- Não! - protestou Lourdes. Até Ivonilde virara para ver o acontecimento. - Não vamos a lugar nenhum Tilda, não até você conversar com a Ivonil... - Ivonilde deu uma tosse proposital. - …com a Madame Petra Cassandra.
- Ora, ora! Vejam só, o que posso fazer por vocês duas?
- É a minha filha, Madame Petra. Perdeu o marido há alguns meses. Estamos sofrendo muito e não sabemos mais o que fazer. Viemos até você para que pudéssemos tentar conversar com o Rubens, saber se ele está bem.
Madame Petra Cassandra ficou fitando a dupla por alguns instantes, ponderando se valeria o esforço ajudar ou não. Pensou por bons instantes, até que seu coração de manteiga falara mais alto. Ela se sentiu culpada, pois daria o recado padrão daqueles que já faleceram. Mas conhecia aquelas pessoas, era sempre mais difícil com as pessoas conhecidas.
- Está bem. Podem se consultar comigo, mas é melhor que vocês duas se comportem. Energia negativa espanta os cosmos. Preciso de uma energia bem fluída para estabelecer uma conexão com o outro lado. Por favor, me acompanhem.
Madame Petra levou mãe e filha para uma salinha nos fundos da loja e pediu para que Jéssyca, sua assistente, cuidasse da loja enquanto prestava sua consultoria.
Nos fundos da loja aparecia uma sala, coberta por panos roxos com detalhes em amarelo. Um forte cheiro de incenso e xerez no ar. Era bastante enjoativo. Almofadas ficavam espalhadas por todo o lugar junto a tapetes de imitação persa. Lourdes e Matilda olhavam aquilo com grande desconfiança, mas já que estavam na chuva, agora era pra se molhar.
- Sentem-se aqui e me aguardem por uns instantes. Peço que enquanto me preparo não fiquem de braços e pernas cruzadas, isso corta a energia. E mentalizem aquele com quem querem conversar. Voltarei em alguns minutos. - Lourdes deu um grande cutucão na filha que tinha uma carranca no rosto. Madame Petra teve de virar logo para não a virem rindo.
Enquanto deixava as duas aguardando, Madame Petra foi tirar sua longa capa, naquela sala podia ficar muito abafado, e foi dar uma repassada no roteiro que há muito tempo tinha escrito. Com perguntas e respostas mais ou menos padronizadas. É claro que tinha bastante improviso, mas ele só se tornava consistente devido ao roteiro. Ivonilda então colocou uma música ambiente que fazia lembrar algo bem cigano.
Quando voltou deixara somente o turbante e as roupas esvoaçantes que já usava normalmente. Veio dando um clima, cheios de Aumnnns e Aooons. Lourdes e Matilda olhavam aquilo com bastante estranheza. Ivonilde resolveu elevar a coisa, como não poderia usar seu sotaque falso para impressionar pensou em outro recurso bastante comum. Resolveu falar em línguas:
- Azaraban guaraguetinguetá charaban xatá catamaraticona. Shimbalaie, quando vejo o sol beijando o mar. Shimbalaie, toda vez que ele vai repousar.
- Ela tá cantando música da Maria Gadú, mãe. - sibilou Tilda para mãe.
- Cala a boa e deixa ela se concentrar, Matilda. - devolveu a mãe com outro cutucão na filha.
Madame Petra Cassandra veio rodopiando e fazendo gestos largos com os braços. Numa das mãos carregava uma bola de crital. Assim que se sentou à mesa repousou a bola de cristal num suporte ao centro da mesa.
- Aumnnnnnn... - continuou Madame Petra. - Espíritos, energias que nos rondam. Estou aqui com Lourdes e Matilda. Alguém do outro lado deseja se comunicar com elas? Oh, Cosmos! Venha até mim! Fale comigo! Me use como seu instrumento, fale através de mim.
Até aí tudo normal para Ivonilde, tudo parte de seu ato. Tirando o fato de que desta vez ela realmente estava sentindo muito calor, mesmo tendo removido a capa. Era aquele turbante maldito, precisava encontrar um look mais leve para poder fazer suas sessões, já estava com seus 50 anos. Não tinha mais idade para passar tanto calor, ainda mais com a menopausa batendo à porta. Fora que sempre sofrera de pressão baixa, e já chegou a desmaiar algumas vezes. Será que era isso? Estava passando mal de calor? Não sabia ao certo, mas sentia a cabeça pesada. As pálpebras cada vez mais difíceis de se manterem abertas. Ela ia desmaiar. Estava pronta para colocar fim ao seu discurso e pedir por ajuda, quando tudo ficou preto de repente.
Quando recobrou os sentidos e começou acordar do seu estupor viu que ainda estava sentada à mesa com Lourdes e Matilda. Ambas a olhavam com cara de espanto absoluto. Ivonilde já estava preparada pro que ia vir. Droga, pisara na bola com seu ato. Fora traída por sua condição. Mais um assunto praquelas velhas fofoqueiras do bairro se deleitarem.
- Olhem, me desculpem, isso não acontece normalmente. Talvez possamos recomeçar... - Ivonilde fora interrompida pelo choro de Matilda. Olhou para Lourdes que ainda a fitava com tremendo espanto.
Lourdes mal conseguia falar, balbuciou sobre quanto seria a consulta. Madame Petra dissera o valor, mas estava pronta para dar uma boa explicação, mas não deu nem tempo disso. Lourdes praticamente arremessara o dinheiro para Ivonilde e saiu correndo de lá com a filha.
Ivonilde estava muito confusa, acabara de acordar de um desmaio e estava sem entender nada. Chamou por Jéssyca.
Logo uma menina de cabelo roxo e cheia de espinhas e espinhos no rosto apareceu:
- Madame Petra, aquilo foi do balacobaco. A senhora está cada dia melhor. Como fez tudo aquilo acontecer? Olha! Olha isso, eu tô toda arrepiada! Menina do céu.
Ivonilde olhava para a menina sem entender. Já achava ela meio maluquinha, mas tinha o coração no lugar, mas agora achava que a menina tinha enlouquecido de vez. Mas mesmo assim resolveu perguntar:
- Do que você está falando Jéssyca? Pode me explicar? Eu estava pronta para colocar o roteiro em ação com aquelas duas, quando tive uma crise de pressão baixa e desmaiei. Quando acordo, não basta a cara de espanto delas e você ainda me vem com essa conversa. Ficaram todos loucos? - Madame Petra fora buscar um pouco de água e Jéssyca veio atrás.
- Você não pode estar falando sério! Não se lembra de nada o que aconteceu?
- Lembrar do quê criatura de oxalá? Dá pra falar na mesma língua que eu, o português? Tá pior do que eu inventando aquelas palavras.
- Eu. Não. Acredito. Sério, não consigo acreditar que a senhora não se lembra de nada.
A essa altura Ivonilde começava a perder paciência e já estava bufando.
- Ok! Ok! Eu conto tudo o que aconteceu, mas você vai ter que me dizer como fez isso depois. Quando a senhora foi lá para os fundos com as duas, eu fiquei aqui na frente como sempre. Escutei a senhora colocando a música e falando em línguas, como de costume. Depois do nada, as luzes começaram a ir e voltar, tudo tremia. Corri para os fundos para ver o que estava acontecendo. A senhora estava flutuando, eu disse FLUTUANDO do chão, coisa de 4 cm. E falava com uma voz grossa, muito grossa. Tipo de homem mesmo, e no ar subiu um cheiro muito forte de Musk, o mesmo perfume que meu pai gosta de usar. A tal da Matilda ficou catatônica, quem falou tudo foi a mãe. Ela quem conversou com você, ou melhor, o Rubens, né? O marido falecido da moça.
Parecia que alguém tinha batido com um porrete em Ivonilde. Do que aquela menina estava falando? Realmente ficara louca de vez, desde quando na vida inteira de Ivonilde ela fizera qualquer contato real com o lado de lá, se é que ele existe? Mas ela de fato se sentia estranha, sentia uma sensação gostosa, de prazer e de fato sentia o perfume de Musk que Jéssyca comentara. Mas não, aquilo não podia ser. Ainda achava que estavam todos malucos. Neste dia resolveu fechar a loja mais cedo, dispensou Jéssyca e foi para casa descansar.
Chegando em casa começou a preparar o jantar, o ogro do Barroco logo ia estar em casa, e ela não queria encheção de saco pro lado dela. Ia fazer um qualquer coisa pra janta, pois ela estava totalmente sem apetite e depois iria pra cama deitar. Deixou o jantar pronto, tomou um banho e deitou na cama. Estava se sentindo exausta, mas ao mesmo tempo sentia um comichão por dentro, algo que não sentia há muito tempo. Ela não sabia bem explicar, só sabia que era gostoso. Pegou no sono e começou a sonhar. Sonhou com um homem bonito, jovem porém já com certa idade. Ele sorria pra ela. Ela sorria de volta. Mesmo próximo ele parecia tão distante. Parecia já conhecê-lo de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde. Então um sentimento ruim tomou conta de Ivonilde no sonho, estavam levando ele embora! Ela não entendia porquê e nem pra onde. Mas começou a gritar, pedindo que ele não se fosse. Mas ela estava presa num clichê onírico, não conseguia correr e sua voz parecia estar presa na garganta. Acordou com o marido gritando de volta:
- IR PRA ONDE NILDE? EU NÃO VOU PRA LUGAR NENHUM, HOJE É DOMINGO. VOCÊ SABE QUE NÃO ABRO A LOJA AOS DOMINGOS!
Traste inútil, pensou Ivonilde. Até parece que o objeto de seu desacalanto seria seu marido! Rá!
O domingo voou. Ivonilde passou o dia todo com a cabeça nas nuvens. Nem as provocações habituais do marido foram capazes de tirá-la de seu pensamento. Tudo que conseguia era pensar no homem do sonho e tentava lembrar de onde o conhecia.
A segunda-feira chegou num galope. Ivonilde chegou na loja e já a encontrou aberta. Jéssyca chegara cedo naquela manhã. Ótimo. Nem bem entrou na loja e Jéssyca já colou na grade. Disse que a mulher do falecido estava novamente na loja e estava esperando nos fundos para conversar com Ivonilde. Ah, que droga, mas o que será agora? Estava de cabeça cheia, poderia usar uma segunda tranquila. Foi até seu camarim, trocou rapidamente de roupa e foi ao encontro de Matilde, dessa vez desacompanhada.
- Bom dia! Não está um pouco cedo pra...
- Madame Petra! Desculpe vir assim tão cedo. Mas... Mas eu precisava vir aqui mais uma vez. Eu não sei... Eu não consigo pensar por onde começar. Mas quero me desculpar por ter duvidado de seus poderes. Meu Rubens! Meu Rubinho, eu nunca... Oh! Jamais pensaria que escutaria sua voz novamente. E naquele dia... Fantástico. Por favor, faça novamente, eu imploro. Eu pago a mais! O dobro! O triplo se for necessário! Mas por favor, traga meu Rubens para conversar comigo de novo.
Mas agora Ivonilde estava numa boca de sinuca. O que ela ia fazer? Nem sabia o que tinha acontecido da primeira vez, e se dessa vez, seja lá o que tivesse feito, o que diria caso falhasse? Estava começando a recusar a proposta, dizendo que aquele dia o Cósmos não se mostrava muito auspicioso. Mas Matilda insistiu muito. Disse que não deixaria o lugar enquanto não falasse com seu Rubens. Ivonilde estava sem paciência mas não gostava de destratar ninguém. Então disse que tinha avisado, o Cósmos não estava receptivo, então se nada acontecesse, seria devido a isso. Ótima desculpa que arranjara. Matilda concordara com os termos, mesmo de pagar a consulta mesmo nada acontecendo.
Então lá foi Madame Petra, mais uma vez com seu teatrinho. Novamente, sentia-se estranha. Mas com certeza fora por conta do que já estava sentindo. Quando sentou à mesa, junto de Matilde, e colocou a bola de cristal no suporte. Puft. Apagara novamente. Dessa vez quando despertou, sentiu-se presa. Quando deu por si, Matilda a agarrava, beijando seu rosto e repetia sem parar: Oh Rubens! Meu Rubinho é mesmo você.
- Aaaaah! - gritou Ivonilde.
- Aaaaah! - gritou Matilda em resposta, largando Ivonilde, que quase levou um tombo.
- Mas eu posso saber o que você pensa que estava fazendo? Isso é assédio, viu minha senhora.
- Mil perdões, mas eu não consegui resistir. Estou tão envergonhada. É que por um momento eu o vi, meu querido Rubens. - Matilda vasculhou a bolsa e tirou de dentro uma foto da família de quando Rubens ainda era vivo. Aquele cheiro de Musk perpetuando no ar.
Ivonilde precisou buscar por seus óculos para poder ver melhor. Quando os colocou, quase caiu dura pra trás. Mas, não podia ser. Será? Não, isso só podia ser a merda de uma brincadeira de mau gosto. Rubens, o homem da foto. Falecido de Matilda. Encarando Ivonilde naquela foto, não... Sim, era ele, o mesmo homem de seu sonho. O mesmo homem com quem sonhara acordada o dia inteiro. Ela se arrepiou toda. Dessa vez quem ficou perplexa foi Ivonilde. Dispensou o mais depressa que pôde Matilda. E ficou um tempo no espaço do fundo, refletindo.
O que estava acontecendo? Nunca antes na sua vida sequer sonhara com nada paranormal, de tão acostumada que estava com a rotina. E era tão certa de que não existia nada do outro lado. Só podia estar ficando maluca de vez. A mãe morrera cedo, talvez estivesse chegando a hora de Ivonilde também. Mas o que explicava aquela sensação boa? Começou então a rezar, muito embora trabalhasse com todas as bandeiras, sua crença torta ainda era no catolicismo. E foi pra Deus que ela rezou.
Ficou mais um tempo na sala e então teve uma ideia:
- Ei! Xiiiu! Vem aqui! Psiiiu! Apareça para mim espírito. Não vou machucar você! Ei, não me ignore não. Trate já de...
- Madame Petra?
- Aaaaaaah!
- Aaaaaaah! - gritou Jéssyca em resposta.
- Xacatanã bacantá! Menina, vai assustar a senhora sua mãe. Eu tenho coração fraco, não posso ficar levando esses sustos assim.
- Desculpe Madame, mas é que ouvi a senhora conversando sozinha e tem um cliente aqui na loja perguntando da senhora. E bem...
- Mas quem disse que eu estava falando sozinha? Vá, me deixe. Diga que eu já irei. Agora vai, chispa!
Jéssyca sumiu nas cortinas roxas. Madame olhou em volta e pensou: Vai pensando que vai me deixar falando sozinha, mas não vai mesmo!
Deixou o recinto e foi encontrar com o cliente que a esperava, o atendeu o mais rápido possível. Ela queria mesmo é ficar sozinha na sala para poder fazer seus experimentos.
Dispensou Jéssyca, que relutou muito em ir embora.
- Ah, mas agora que as coisas estão ficando legais é que eu tenho que ir?
Que grude essa menina, senhor! Mas conseguira fazê-la ir embora pra casa. Quando ficou sozinha na loja, trancou a porta da frente e foi correndo para a sala dos fundos.
Colocou música e tentou dançar. Falou em línguas. Tentou se hipnotizar. Jogou cartas, búzios, bebeu quase uma garrafa inteira de café para ler as borras. E nada. O que estava faltando? Ora, não podia ser tão complicado assim... Ela precisava entender o que estava acontecendo. Precisava constatar se era verdade. Tinha que ser. Aquele cheiro de Musk no ar e a sensação de se sentir... preenchida. Sim, essa era a palavra. Sentiu-se preenchida quando recebeu Rubens em seu corpo. Uau. Aquilo era gostoso, se não viciante. Precisava daquele sentimento de novo. Pensou, pensou e teve uma ideia.
Entrou em contato com Dona Clotilde, dizendo que tinha uma mensagem urgente de Rubens para Matilda. Como não tinha seu contato, pediu que Dona Clotilde desse o recado de que Matilda aparecesse o quanto antes, e com uma foto de Rubens, somente de Rubens, até sua loja.
E assim foi feito. Na semana seguinte Matilda estava na loja. Ainda sentia-se um pouco envergonhada pela última vez, mas diante de um pedido desses, onde seu marido deixara um recado pra ela, não poderia negar. Foi à loja de foto na mão e pediu por Madame Petra. Madame cumprimentou Matilda como se fossem grandes amigas, era só sorrisos. E não deixou de reparar na foto na mão de Matilda, Rubens estava de morrer. Ai que pecado, pensou, ele já estava morto. Mentalizou suas mais sinceras desculpas dando uma rápida olhada em direção ao céu.
- E então, Madame. Que recado urgente é esse que Rubens deixou para mim? - Matilda parecia menos abatida, estava até mais coradinha. Estava muito animada, pois o marido a chamara. O que é uma dimensão quando se trata do amor verdadeiro?
- Ééé... Sabe o que é... - droga, Ivonilde não pensara direito. Estava com a cabeça nas nuvens ultimamente. Só conseguia pensar em Rubens, sonhar com Rubens, desejar Rubens preenchendo-a de novo e de novo e de novo. - Veja bem... Eu não consegui captar a mensagem muito bem. Sabe como é, já te falei que essa coisa de Cósmos é muito de lua. E bem, o que eu entendi é que Rubens gostaria de se comunicar melhor com sua família. E ele me instruiu que com uma foto sua... Digo, dele... Aqui, talvez isso ajudasse melhor na conexão do mundo de cá com o mundo de lá e talvez ele conseguisse entrar em contato mais vezes.
Matilda ficou radiante. É claro, mas é claro que sim! Quantas fotos Madame Petra quisesse. Contanto que ouvisse mais e mais sobre seu Rubens. Por sua vez Madame Petra ficou aliviada, essa tinha sido por pouco. Achou que não ia colar, mas ela duvidara de si mesma e de sua persuasão. Era muito fácil enganar as pessoas, muito embora dessa vez, ela não estivesse enganando ninguém, não por completo. De fato sentia a presença de Rubens, mas só quando Matilda estava lá. Mas Madame tinha pensado numa solução, talvez uma foto do falecido conseguisse criar uma conexão forte o suficiente para que ela pudesse chamar Rubens quando estivesse sozinha.
Não demorou muito e logo arranjou para que ficasse sozinha na loja com a foto de Rubens, deu uma desculpa qualquer a Jéssyca e fechou a loja.
Quando na sala dos fundos, deixou a foto de Rubens sobre a mesinha onde se sentaria e começou o ritual, como faria para um cliente que estivesse ali. Colocou música, dançou, girou, mas dessa vez fez exatamente aquilo que estava faltando, colocou um pouco do seu coração nisso. Antes que pudesse chegar à mesa, caiu no chão. Quando pareceu acordar não estava na sala, e sim num lugar branco, enevoado e vazio. Ficou muito confusa. Levantou-se e começou a perambular o espaço, até que ouviu atrás de si:
- Ivonilde?!
Mas seria possível? Virou rapidamente, tão rápido que atacou sua labirintite e quase caiu, mas teria valido a pena, só para que ela pudesse estar com ele, dessa vez, falando com ele. Ela não sabia por onde começar, fez as perguntas mais básicas “Aquilo era real?”, “Ele estava realmente ali?, “ Como aquilo era possível?”. Ela parecia uma criança no natal, encantada com toda aquela energia mágica. Esclareceu todas as suas dúvidas e mais um pouco com Rubens. O cheiro de Musk era altamente intenso onde se encontravam. Ivonilde, você está ferrada!, pensou. Apaixonada por um espírito! Mas que absurdo e ao mesmo tempo tão irônico. O homem de seus sonhos, de fato ficaria somente em seus sonhos, mas isso não quer dizer que de alguma forma Ivonilde não poderia viver aquilo.
Além de uma questão muito básica entre dimensões, havia um outro problema. Mesmo morto, ela estava apaixonada pelo marido de outra mulher. E de uma mulher que contava com Ivonilde como sua confidente. Mas que situação.
Rubens não podia ficar muito mais, então todo aquele ambiente fora dissolvido e Ivonilde retornara a sua realidade. Extasiada.
Passava dias e noites pensando em Rubens. Sua presença era tão forte pra ela, que passou a sentir e cheirar a Musk. De noite entre sussurros chamava por Rubens.
Já não ligava mais tanto para a casa e muito menos para Barroco, que por sinal estava começando a demonstrar fortes sinais de ciúme. Mas desde quando Ivonilde dera bola pra esses ataques de Barroco? Ele podia ficar com a primeira lambisgóia que aceitasse seu pincel já gasto. Enquanto Ivonilde estava vivendo um sonho. Quão poético.
Até que Ivonilde parou por um momento e se deu conta de algo. Matilda. Não dera notícias há algum tempo a ela. E por mais que se esforçasse para que Matilda não fosse mais a loja se consultar, começou a inventar recados de Rubens a ela. Matilda estava mais do que feliz, Lourdes, embora preocupada, só queria o bem da filha e ela nunca estivera tão bem desde a morte do marido.
Enquanto isso Ivonilde incorporava Rubens somente para ela. Somente para os seus caprichos. Barroco já comentara com uma ou duas pessoas, que passarem a ser 4 ou 5, 7 ou 8 até o boato cair nos ouvidos de Dona Clotilde de que Ivonilde estava traindo o marido, com um louro alto, mais jovem que ela.
Dona Clotilde começou a escutar as brigas de Barroco com Ivonilde, perguntando de quem era aquele perfume. Por que a esposa andava tão avoada? Só queria saber de ficar enfiada naquela loja, aquilo não era jeio de tratar o próprio marido.
Até que um dia Barroco resolveu ir na loja de Ivonilde numa hora que ela não estivesse lá. Encontrou com Jéssyca e disse que a esposa pedira que ele buscasse algo no salão dos fundos para ela. Jéssyca não viu nada demais, afinal de contas era Barroco, o marido da sua patroa. Ela que não ia recusar. Deixou que ele entrasse e ficasse à vontade. Precisando era só chamar.
Barroco então começou o trabalho investigativo. Procurou em cada cantinho, o lugar fedia àquela merda de Musk, que cheiro horrível. Até que finalmente, no fundo de uma gavetinha achou a foto de seu concorrente. No fim Dona Clotilde tinha razão, sua mulher era mesmo uma desfrutável. Ele era homem, tinha necessidades, mas quem Ivonilde pensava que era?
Decidiu que então contaria apenas para uma pessoa sobre a traição, e essa pessoa não era ninguém menos que D. Clotilde. Guardou a foto no bolso e foi embora.
- É isso mesmo que a senhora ouviu D. Clotilde, me traindo.
- Oh, é mesmo, querido? Conte-me mais. Aceita mais um pouco de chá? - mesmo antes da resposta foi servindo mais chá ao vizinho engalhado.
- Sim, e eu ainda consegui uma foto do crápula! - pegou no bolso. - Veja a senhora, com seus próprios olhos, o que eu achei na loja de Ivonilde.
D. Clotilde deixou o bule de chá despencar no colo de Barroco, tamanho era seu espanto.
- Puta que pariu!!!! Por acaso é Natal e eu não sabia? A senhora está tentando assar um peru, ou quê? Velha maluca. Também deve ter ficado caidinha pelo tal. Vocês mulheres são todas iguais... - Barroco saiu esbravejando da casa de D. Clotilde.
Passaram alguns minutos até que D. Clotilde pudesse agir novamente, mas a primeira coisa que pôde fazer, foi passar a mão no telefone e ligar para sua amiga:
- Louuuurdes, menina, espero que esteja sentada. Não sei nem por onde começar. - e contou tudo o que Barroco lhe falaou. Tim tim por tim tim. Lourdes estava em choque.
Pediu para que Clotilde repetisse pelo menos três vezes a história até que pudesse assimilar.
Lourdes, sem ação, só conseguiu fazer uma coisa. Passou a mão no telefone e ligou para a filha. Lourdes precisou repetir a história pelo menos 4 vezes para que Matilda pudesse assimilar.
O que estava acontecendo com o mundo? Se perguntavam Clotilde, Lourdes e Matilda. Como pode a pessoa trair alguém com um morto? Aquilo tudo só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto. Matilda ficou enraivecida. Correu o quanto mais rápido pôde para a loja de Barroco. Levou a foto que ele tinha deixado com D. Clotilde e mais a mesma foto que levara pela primeira vez a Ivonilde.
Precisou repetir pelo menos 5 vezes a história para que Barroco pudesse assimilar. Mas que palhaçada era essa? Agora Barroco, Clotilde, Lourdes e Matilda se perguntavam o que estava acontecendo com o mundo.
Matilda e Barroco não tiveram dúvida, queriam tirar essa história a limpo. Então planejaram aparecer de supetão e pegar Ivonilde com a boca na botija. Barroco jurava de morte aquele Ricardão do além. Não bastava estar sendo chifrado, mas tinha uma galhada sobrenatural. Matilda também estava espumando de raiva, querendo quebrar a cara de Ivonilde e de Rubens, que Deus o tenha, se ainda estivesse aqui.
Quer dizer que ela chorando pelo marido e ele curtindo com outra lá do além? Tinha que ser taxista, flertava com o primeiro rabo saia que pintava na frente. E agora quem embarcara no táxi fantasmagórico de Rubens tinha sido Ivonilde. Que raiva!
Planejaram que iam abafar a história para não dar bandeira. Até D. Clotilde concordou com o voto de silêncio, contanto que pudesse ir junto com os dois. Lourdes que era a mãe, não gostou de ser deixada de fora, então exigiu ir junto também. E assim, numa tarde de terça-feira os quatro combinaram de ir até a loja da Madame Petra Cassandra de araque.
Quando Jéssyca vira os quatro dentro da loja sabia que não ia sair boa coisa dali, tentou disfarçar dizendo que Madame Petra não estava, mas não houve jeito. Os quatro marcharam para dentro do quarto dos fundos.
Foi quando então encontraram Petra, ou melhor Ivonilde, levitando a alguns centímetros do chão, um sorriso bobo no rosto. Falava ela e também fazia as vezes de Rubens.
- Mas o que está acontecendo aqui? - perguntaram os quatro em uníssono. Jéssyca veio correndo atrás e só deu tempo de ver sua patroa caindo estatelada no chão.
Ivonilde fora pega em flagrante, mas com quem? Com o que? Fazendo o quê? Barroco queria quebrar a cara inexistente de Rubens, enquanto Lourdes e Clotilde seguravam Matilda, que queria dar na cara de Ivonilde.
A situação não tinha uma resolução simples, afinal, quando foi que alguém traiu o marido com uma pessoa póstuma?
Quando caíram em si, viram que não havia o que ser feito, pelo menos em parte. Matilda e Lourdes nunca mais quiseram falar sobre Rubens ou sobre qualquer coisa sobrenatural. Dedicaram-se fervorosamente ao evangelismo e na expurgação de práticas iguais as de Ivonilde.
Barroco pediu o divórcio, coisa que Ivonilde ficou mais que aliviada. Barroco tentou, mas nenhum advogado considerou o caso processar a esposa por traição, ainda mais sendo o ocorrido com um espírito. Ele foi obrigado a aceitar o acordo, onde perdeu quase tudo, que aliás, já nem era dele.
E Ivonilde? Bem, ela continua com seus esquemas, é claro. Mas está feliz e muito bem conectada com Rubens. Tantas pessoas namoram pela internet, tem relacionamentos à distância, eles estavam se esforçando para que as coisas dessem certo. E ela estava feliz, do jeito que nenhum homem vivo foi capaz de fazê-la sentir. E sabia que um dia iria chegar a hora que ela e seu amado poderiam estar juntos por toda a eternidade.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Desventuras em série de um “quitute frito, brasileiro, com base de massa de farinha de trigo e recheio de frango desfiado, que pode, ou não, conter catupiry®” ou o terror do trajeto para o trabalho de ônibus

         Como diz o ditado popular: todos os caminhos levam a Roma, e foi daí que um belo dia, que eu estava sem carro, fiquei em conflito sobre que forma eu iria para o trabalho.
Geralmente vou dirigindo ao trabalho, porém devido a um pequeno acidente de trânsito envolvendo uma fechada de uma moto, um carro, dois motoristas nervosos e uma fantasia de Super Mario, neste dia eu teria que buscar uma alternativa. Baixei diversos aplicativos, pensei em Uber ou Táxi, porém os valores das corridas estavam elevados e eu não estava afim de gastar muito. Até que me ocorreu de baixar um aplicativo chamado Moovit, que além de te ajudar a achar o melhor trajeto ao trabalho, ainda indica onde e qual transporte você deve pegar. Pois bem, estava decidido: seria transporte público, ônibus.
Me arrumei para trabalhar, peguei a minha mochila e saí feliz da vida numa grande jornada. Dei play na minha setlist do celular e dei o primeiro passo em direção ao ponto do ônibus. Nina Simone cantava seu poderoso “Feeling Good” e eu estava muito confiante, pois apesar de ser muito perdido o aplicativo não só mostrava a melhor rota, mas também a que horas passaria o ônibus e quantidade de pontos que se passariam até que eu precisasse descer. Mel na chupeta, foi o que pensei.
Cheguei no ponto de ônibus, fazia um dia de frio, o que pra mim caiu como uma luva já que eu teria que andar consideravelmente bem. De momentos em momentos eu consultava o aplicativo para ver se meu ônibus já se aproximava, teria que pegar um que fosse em direção à Santo Amaro. Confesso que eu estava um pouco ansioso, no meu fone Ninão deu vez a Maiara e Maraisa com “Medo Bobo”. Passaram mais alguns momentos e finalmente, triunfante, subindo a rua lá vinha o meu “busão” o 5010-10. Dei o sinal, quase acenando desesperadamente, e a lotação indicou sua parada.
Subi e cumprimentei com um “Bom dia!” ao motorista. Até porque se ele não estivesse tendo um bom dia era melhor passar a ter, afinal eu estava dentro daquele ônibus. Maiara e Maraisa foram substituídas por RuPaul e seu “Sissy That Walk”, o que não combinava nada com o andar daquela lotação, fui mais sacudido que suco de caixinha. O caminho era longo e nada deserto, a lotação dava voltas e mais voltas intermináveis. Mas pelo menos o ônibus estava vazio e tranquilo, até que chegou nas imediações da Av. Washington Luiz. Meu amigo, renomearam aquele ônibus de Santo Amaro pra Lata de Sardinha. Era gente saindo pelo ladrão.
RuPaul deu seu lugar a Remmi e, olhando pela janela, me senti num daqueles clipes musicais de baixo orçamento. Encarando o nada, com cara de “Jesus me chama” e ouvindo “Star Spangled”.
Ainda faltava um tempo considerável até meu ponto e tudo o que eu conseguia pensar era em como eu ia conseguir saltar no meu ponto. Pessoas e mais pessoas não paravam de entrar, mas quem tá na chuva é pra se molhar, então vamos que vamos.
Quando eu menos espero ouço uma voz “Prepare-se, seu destino se aproxima!”, bom depois de ser sacudido, espremido e tirado o ar com aquelas “senhouras” bojudas e de prancha no cabelo que sempre escolhem sentarem à janela, só para poderem fechar todas. Achei mesmo que a minha hora já estava chegando. Mas na verdade era o bendito do aplicativo que avisava sonoramente que o meu ponto estava próximo. Achei genial! Parabéns Moovit!
Desci num lugar que me era familiar, porém era necessário que eu fizesse a baldeação para o próximo ônibus, segundo o aplicativo seriam apenas cinco minutos de caminhada e além do mais era indicado no mapa o trajeto. Era pra ser mamão com açúcar. Mas vamos dizer que o mamão não estava maduro e o açúcar na verdade era sal.
Andei por toda a Santo Amaro e não conseguia me achar. Quanto mais próximo eu pensava estar da rua onde eu precisava pegar o ônibus, quando olhava no mapa, mais distante eu estava. Rodei pior que peão do baú. Para fazer companhia ao meu desespero Ruelle cantava “Madness” em meus ouvidos. Para ser sincero eu estava quase desistindo de ir trabalhar e ficar ali em Santo Amaro mesmo, fazendo umas comprinhas. Mas eu não podia desistir. Então comecei a perguntar às pessoas na rua:
- Moço, por favor, estou perdido. Preciso pegar o ônibus 6041-10. Pode me indicar a direção? – recebi apenas um aceno negativo com a cabeça.
- Moça, oi! Desculpa, mas você sabe onde eu posso pegar o ônibus 6041-10? – mais uma resposta negativa.
Eu já estava ficando desesperado. Agora além de não saber mais onde estava, não sabia chegar ao trabalho e muito menos voltar para casa. Pensei nas possibilidades em bater de porta em porta e dizer que me perdi, não sabia voltar para casa e torcer para ser adotado por alguma família de bom coração. Se estivesse no meu destino um dia eu ainda reencontraria minha antiga família, mas isso estava nas mãos de Deus, eu nada mais podia fazer.
                Perambulei, fui perguntado se tinha ouro, quase tive vontade de rir em escárnio. Se ouro eu tivesse, o que eu estaria fazendo em Santo Amaro? Tentaram me vender relógios, meias. Pessoas de coletes azuis queriam fazer experimentos horríveis comigo, fazendo perguntas intermináveis, quando não conseguiam responder à minha simples pergunta sobre onde eu poderia pegar o 6041-10. Que morte horrível, abandonado por Deus e o aplicativo. Parecia que estava tudo começando a ficar escuro, a luz do dia parecia perder o seu efeito. Eu continuava andando, mesmo sem um rumo, sem um norte a seguir até que minhas preces finalmente foram atendidas e eu não mais estava tão sem rumo assim. Eu só tinha um nome, mas valia a pena tentar: Rua Paulo Eiró.
                Parei no primeiro comércio que topei e perguntei a um senhor de camisa azul e bigodinho branco, que se encontrava na porta, se ele sabia onde ficava a R. Paulo Eiró.
                - Mas o que você precisa fazer nessa rua? ­– confesso que a pergunta me deixou um pouco perplexo, que diferença fazia? Mas eu que não queria fazer papel de trouxa em dizer que eu me perdi em rumo ao trabalho respondi com um sorriso amarelo.
                - É entrevista de emprego. – foi a primeira resposta que me veio em mente. E confesso que eu a achei bastante inteligente, pois com o país em crise, todos são solidários, ainda mais quando se trata sobre alguém conseguir um trabalho.
                - Rua Paulo Eiró? – perguntou retoricamente o senhor.
E eu na minha total e completa inocência:
- É moço, fica perto do teatro Paulo Eiró. – ah, mas eu estourei a boca do balão com essa informação complementar. Apesar de não fazer ideia se ela era realmente verdadeira.
Então o senhor, enquanto me encarava, pensou mais um pouco e disse:
- Mas pera lá. Você precisa ir na Rua Paulo Eiró ou no Teatro Paulo Eiró? Elas são em direções opostas.
“Meu Mundo Caiu” de Maysa entoava no fone esquerdo que eu mantivera na orelha. E agora? Eu não queria me sentir mais palhaço do que eu já estava me sentindo. Disse com tanta convicção que o teatro ficava na rua que levava o mesmo nome e tinha sido desmascarado ali, no seco.
- Olha, agora o senhor me deixou confuso. Mas eu acredito que seja a rua mesmo. – respondi na esperança de pelo menos alguma direção eu conseguir.
- Mas você precisa ir na rua ou no teatro? – de novo aquela pergunta, até eu começava a duvidar sobre onde eu realmente precisava ir. Olhei para ele da mesma forma que o Windows olha pra gente quando dá um pau de sistema, com uma tela azul. Percebendo meu transtorno ele me deu a direção da rua e do teatro, mas insistia em querer saber aonde eu precisava ir com a pergunta que me assombra até hoje “Mas é na rua ou no teatro? Porque se for na rua você sobe aqui, vira à direita e depois à esquerda e segue reto toda vida. Mas se for pro Teatro é lá pra Adolfo Pinheiro, dai você vai voltar por onde você veio e vai virar à direita, vai reto, quando chegar no fim da rua, vira à direita de novo, depois desce à esquerda e você chega lá.”
Eu estava quase querendo levar este senhor comigo para me guiar, como pode alguém ter tantas informações assim na cabeça? Esplêndido! Eu disse a ele que apesar da minha confusão eu estava certo agora de que era a rua o meu destino. Eu o agradeci imensamente e fiquei feliz por finalmente ter a minha direção.
Reoloquei o fone da orelha direita e “Conquest of the Paradise” de VANGELIS iniciava triunfante com seu canto gregoriano. Consultava o mapa do aplicativo e as direções do senhor eram mais que precisas, eu finalmente me aproximava de meu destino. E isso foi confirmado quando avistei o ponto e melhor que tudo, avistei ônibus que eu precisava pegar, parado no ponto. A música chegava ao seu ápice. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, eu corria para o ponto, um sorriso brotava em meu rosto, minha mochila se chocava contra as minhas costas e fazia um barulho de tilintar das ponteiras dos zíperes. Meus longos cabelos eram lambidos pelo vento forte que soprava. Minha mão se ergueu e eu finalmente dei o sinal. O sinal de esperança. O sinal de que eu estava salvo. O sinal de que ainda havia esperança para mim, minha história ainda não tinha acabado.
E o ônibus passou por mim.
Filho da puta desse motorista. Mas eu estava tão feliz em pelo menos ter me encontrado. Eu sabia que outro ônibus iria passa dali um pouco, então não me preocupei. Eu não perdi ônibus nenhum, o motorista que perdera a incrível oportunidade em me ter como um de seus passageiros.
Apenas me restava esperar pelo próximo ônibus, o aplicativo indicava que não demoraria muito até o próximo chegar. E ali fiquei, feliz. Muitas linhas se passavam, mas eu só tinha olhos para o 6041-10, Jd. Jangadeiro.
E ali vinha ele, me senti revigorado, a energia pulsava em mim. Dei o sinal, me senti poderoso, com apenas um gesto, fazendo aquele grande veículo parar. As portas da esperança se abriram, mas o meu choque não poderia ser maior.
Quando subo a plataforma do ônibus e vejo o motorista, ele não era ninguém mais, ninguém menos que o mesmo senhorzinho que me fornecera as instruções. Escapara ao meu olhar a inscrição no bolso de sua camisa quando conversamos mais cedo, mas lá estava escrito SP Trans. Mais uma vez o cumprimentei com um sorrisinho amarelo, mas passei depressa a catraca, era humilhação demais.
Segundo o aplicativo não demoraria muito para que eu chegasse ao trabalho, mesmo tendo me perdido eu ainda conseguiria chegar dentro do horário. O ônibus estava vazio, mas para não correr o mesmo risco anterior eu já fiquei feito um dois de paus na porta, para facilitar a minha descida.
Senti uma paz no coração, que foi bastante breve, eu me dirigi ao fundo do ônibus, onde não se encontrava ninguém. Na frente, dezenas, não. Centenas, não. Milhares de lugares vazios, esperando para serem ocupados. Porém um jovem e uma moça entraram comigo no ônibus. A moça atrás de mim e o jovem no bando à minha direita. Um abre um pacote de pipoca doce Emília e a outra um sacão de Fofura sabor queijo. A vontade de desmaiar foi pior do que se tivessem enfiado um pano com éter em meu nariz. Aquele cheiro era nauseante. Com tantos lugares para sentarem, por quê? Por que perto de mim? Só pude agradecer ao Divino que o meu trajeto pelo menos era curto.
E lá fomos nós. Eu, de pé, os comensais próximos à mim e o ônibus indo a milhão. Gostei daquele senhor.
De repente o mesmo aviso conhecido toca em meu celular e ouço a voz angelical indicando mais uma vez que meu destino se aproximava. OBRIGADO SENHOR!
Eufórico e aliviado, ao mesmo tempo, David Bowie deu início a “Rebel Rebel” em meu fone, eu saltei em minha parada e fui caminhando até o prédio onde trabalho.
E foi assim, meus amigos, cheio de fortes emoções, mas com uma setlist de arrasar, que eu cheguei ao trabalho naquele dia. Ainda ninguém sabe quais outras aventuras me aguardam, mas vai demorar uma semana pro carro ficar pronto. Penso cá com meus botões: o que mais encontrarei no meu caminho?

Agradeço a Deus por ter sobrevivido a essa manhã e poder compartilhar minha história com vocês. Não deixem que ela morra, espalhem a 4 ventos, de pulmões brandos as desventuras em série desse  “quitute frito, brasileiro, com base de massa de farinha de trigo e recheio de frango desfiado, que pode, ou não, conter catupiry.

[gostou da playlist e gostaria de ouvi-la? Agora você pode clicando aqui: https://www.youtube.com/playlist?list=PLlJdyhh6YYoR2zZrW8pU8wUU4ZdvsSwE3]

domingo, 29 de outubro de 2017

A Jústíssima Comédia nada Divina

A juíza Ivone levantou da cama. O relógio já marcava 6h, o despertador do celular começou a tocar a sua música favorita “Fogo e Paixão” do grande cancioneiro brasileiro, Wando. Devido ao horário de verão tudo ainda estava escuro do lado de fora. Então nem se deu ao trabalho de abrir as cortinas. Tivera uma noite particularmente irritante devido ao excesso de calor e só de pensar em que logo menos teria que vestir seu habitual uniforme de juíza só pensava em como gostaria de poder ir trabalhar pelada por baixo de seu “hábito” como gostava de brincar.
Do outro lado da cidade também começava a manhã do advogado Aleexandre. Detestava o próprio nome, mas sua descendência é carioca, muito embora ele tenha nascido em São Paulo, Capital. O pobre, por sacanagem do escrivão paulista que não ia com a fuça de cariocas, recebera o nome por conta do sotaque da mãe ao pronunciar Alexandre, porém com som de Alixandre. O horário de verão também mexia muito com ele, pois tinha grande dificuldade de se adaptar. Era sempre a mesma ladainha de todos os santos: quando finalmente começava a pegar costume tinha de atrasar novamente o relógio. Achava simplesmente detestável. Para variar seu despertador tocou com o sonoro “Triiiiim”. Ele abominava o objeto, mas não havia muito o que poderia fazer, pois ganhara o despertador de dia dos pais numa ação da escola dos filhos. Ele mal conseguia acreditar que tinha pago R$ 50 por um relógio com a foto dos filhos e que pior ainda, odiaria tanto o presente. Sua esposa se mexeu na cama também já desperta. Também odiava o tal despertador mas achava que o marido tinha o maior apreço pelo objeto, mal sabia ela.
Não muito longe de onde Aleexandre mora, também vive um de seus clientes, Theobaldo Honório, que recentemente havia sido dispensado de seu serviço na “firma” e entrou com um processo trabalhista contra a mesma. Acordou confiante naquela manhã. Afinal, no Brasil processos trabalhistas contra empresas são praticamente causas ganhas. Seu amigo Pedro, mais conhecido como Xablau, tinha concordado em depor a seu favor no julgamento. Seu advogado disse que seria uma audiência breve e que não tinha com o que se preocupar, com as provas e evidências que tinham as chances de perder a causa eram praticamente nulas.
Ivone, Aleexandre e Tehobaldo não esperavam por uma simples coisa chamada acaso.
A juíza deu de comer ao seu gato, Pavarotti, infelizmente seu gato tinha um sério problema em suas cordas vocais, quando o tadinho miava parecia um motor de fusca azul calcinha, 93. Fechou o apartamento e saiu do prédio com seu luxuoso carro para o tribunal. Aleexandre mal teve tempo de tomar seu café da manhã, pois na rotina entre deixar os filhos na escola, ainda tinha que correr para o tribunal. Theobaldo despediu-se da esposa que lhe dera um beijo seguido de um sorriso amarelo, não por desconforto, mas tinha um péssimo hábito de fumo que dividia com o marido.
Theobaldo e Aleexandre tinham combinado de se encontrarem em frente ao tribunal, junto com Xablau. Eles passariam mais uma vez o roteiro que tinham combinado e então às 8h entrariam para a audiência. Aleexandre dera graças a Deus que estaria finalizando o processo. Particularmente não gostava de Theobaldo e o achava um xucro, mas ele estava em dia com seus deveres, então nada mais justo que receber por seus direitos. Trabalhara na empresa por mais de 10 anos, além do que normalmente teria a receber, ainda receberia um gordo adicional que realizaria o sonho de Baldo e Sônia de fazer o tão sonhado puxadinho. Baldo não tinha o melhor emprego do mundo, mas pagava as contas e era isso o que importava. Trabalhou todo esse tempo como empacotador de salsichas para uma grande fábrica de alimentos.
Xablau chegou nos 15 do último tempo, Aleexandre suava de nervoso, porém Baldo não parecia se incomodar com o atraso do amigo de fábrica. Quando Baldo e Xablau se encontraram ninguém poderia ser julgado se desviassem seu olhar para vê-los. Não era possível identificar se estavam brigando ou se de fato eram conhecidos. Era um tal de “E aí, cachorro?” pra lá e “Fala, viadão!” pra cá. Ambos foram repreendidos por Aleexandre que alertou que ambos poderiam levar advertências seríssimas devido ao seu comportamento.  Baldo não gostou da repreensão e já jurava quebrar na porrada quem quer que fosse que tentasse lhe aplicar uma correção. Aleexandre precisou respirar fundo, ele precisava do caso, tinha trabalhado muito e não seria naquele ponto que colocaria tudo a perder, então limitou-se a advertir mais uma vez a dupla que ficou de resmungos durante toda a passagem de roteiro do advogado.
Os três entraram no tribunal para a audiência e Aleexandre não parava de olhar seu relógio de pulso, mais um presente de dia dos pais. Pagara R$ 30 para a escola dos filhos para fazerem essa ação, achou que já tinha visto de tudo, até que recebeu o relógio coberto por macarrão e purpurina. Era monstruoso, pensou que talvez pudesse procurar uma outra escola para os filhos. Estava ansioso e ficava dançando em seus pés ao lado de seu cliente enquanto aguardavam para entrar na sala, até ali tudo ok, até que ouviu atrás de si:
- E aí, adiiivogado?
Só uma pessoa era detestável o suficiente para fazer essa brincadeira com Aleexandre e essa só poderia ser sua “colega” de anos Amanda Raimundo. Amanda era baixinha, tinha o cabelo tingido de loiro platinado à la Ana Maria Braga, além de ser rechonchuda e com grandes ancas. Aleexandre sempre a comparou com um daqueles bonecos Trolls. Amanda já era de certa idade, e suas plásticas, muitas delas malsucedidas, mostravam isso. Aleexandre então se virou com seu sorriso mais falso e cumprimentou a colega.
- Raimundinha, querida, como vai? – sabia que a colega detestava o apelido, mas sentira-se vingado. – O que está fazendo aqui hoje?
- Ora, ora. Veja você que coincidência. O Pereirinha que estava cuidando dos interesses da ex-empresa de seu reclamante foi internado recentemente com diverticulite. Impossibilitado de dar andamento do caso, mais que prontamente me indicou. Foi uma surpresa e tanto, a princípio iria recusar o caso, mas quando soube que você, meu adiiiivogado querido – deu um sorriso largo quando disse a palavra -  estava do lado do queixante, não foi uma oferta que pude recusar. Tive pouco tempo para me preparar, sabe? Mas acredito que você esteja com a fava e o queijo na mão, não é mesmo?
- Bem, à princípio é um caso bastante simples e que não deve nos levar muito tempo em audiência, certamente.
Amanda encarava o colega com seu largo sorriso, então Aleexandre notara a recauchutagem da vez. Ela tinha os dentes muito mais brancos que o usual, porém eles também pareciam maiores do que seria o normal. Disfarçou uma risada com uma tosse.
- Está bem, querido? – perguntou Amanda entre dentes.
- Claro, claro. É só o ar aqui que está um pouco abafado, só isso. Veja, as portas já se abriram, podemos entrar. Te vejo lá dentro, sim?
Amanda o cumprimentou com um aceno de cabeça e virou teatralmente para ir chamar o seu cliente. Aleexandre ficou extremamente aliviado por aquele momento ter chegado ao fim, mas sabia que teria momentos difíceis com a Amanda na audiência. Mal sabia que Amanda seria o último de seus problemas naquela manhã.
Assim que todos estavam colocados e posicionados a juíza Ivone foi anunciada, entrou com cara de poucos amigos, mas era tudo ato. Gostava do respeito que sua presença impunha. Posicionou-se em seu lugar e sem rodeios deu início ao processo. Achava tudo aquilo monótono, pois somente de se olhar as evidências era claro para ela o que deveria ser feito. Mas precisava ouvir as duas partes. Pouquíssimas vezes na sua vida fora surpreendida com qualquer anormalidade onde uma empresa não fazia um acordo com seus antigos funcionários. E assim foi. Os advogados faziam suas colocações, colocavam suas provas em questão e faziam as perguntas que a juíza deveria fazer aos envolvidos.
Audiência brasileira é pior que casal brigado, brincava Aleexandre com a esposa. O advogado é proibido de dirigir-se diretamente à testemunha, então, mesmo que ela esteja ouvindo o que o advogado fala, só pode responder às perguntas quando o juiz as repete. É a mesma coisa o casal brigado: sentados à mesa a esposa pede ao filho “Pode pedir ao seu pai que me passe o sal?”, o pai está sentado bem ali ao lado e ouviu tudo, porém só pode passar o sal quando o filho pergunta “Pai, a mãe tá perguntando se você pode passar o sal.” Um verdadeiro porre.
Tudo estava indo o mais normalmente possível, até Xablau comportara-se de maneira atrapalhada, porém respeitosa.
Chegou a vez do ex-patrão de Theobaldo depor, foi chamado para que se sentasse ao lado da juíza e logo começaram as perguntas tanto de Amanda, quando de Aleexandre.
Muito embora, até os clientes sejam instruídos para que não troquem olhares durante a audiência, Leônidas encontrava momentos de brecha para que pudesse encarar Baldo. Seu olhar misturava desprezo, deboche e arrogância e seu discurso, apesar de contido, não era nada amigável.
Baldo, nordestino arretado, viera para São Paulo para procurar melhores oportunidades para sua família, mas nunca fora de levar desaforo para casa. Era questão de honra, visse? Não estava gostando nem um pouco dos olhares daquele burguesinho do Leônidas, ia todo cheirosinho para à fábrica pra chegar no final do dia cheirando a salsicha como qualquer um outro do setor. Fora que ele falava difícil, era um puta de um metido a besta, o sangue de Baldo fervia com a presença de Leônidas. Os dois nunca se bicaram e ele tinha certeza que sua demissão tivera dedo almofadinha de Leônidas nisso.
Leônidas respondia às perguntas e apresentava o seu cenário e vez ou outra menosprezava Baldo. Amanda encarava a juíza feito um dois de paus, nem tanto por atenção, mas é que suas aplicações de Botox faziam com que ela não conseguisse piscar com tanta frequência.
Leônidas fora dispensado e retornara ao seu lugar. A juíza Ivone já se preparava para dar o seu veredito e a sentença final. Era perceptível o clima tenso entre ambas as partes, sempre fora assim, a juíza Ivone nem costumava dar muita bola para isso, afinal de contas era normal. Ela encarava os papéis em sua frente enquanto preparava as palavras que ia usar, eis que não se sabe como, quando e porquê uma grande discussão entre Leônidas e Baldo tomara lugar.
Quando a situação não podia ficar pior, ambos advogados tentando conter seus clientes, até mesmo Amanda que era chegada num rebú, tentava evitar o conflito, Leônidas atravessa a sala como uma flecha e a próxima coisa que temos é Baldo caído no chão com um grande soco que levara no nariz.
A juíza Ivone estava tão perplexa quanto cada um no recinto. Em 36 anos de profissão jamais vira coisa igual. Em sua perplexidade, quando viu a cena, levantou mais do que depressa e aproximou-se dum Leônidas sendo contido pela segurança e de um Baldo caído no chão e proferindo injúrias ao ex-chefe. Quando a juíza se levantou todos congelaram, pois se a cena da briga em si não fosse um choque, jamais imaginariam que a juíza sairia em socorro daquele pobre homem. Mas sentiu-se muito compadecida e indignada, por isso correu para ajudar Baldo a se recuperar, ver se estava bem.
Interveio em meio a discussão de Baldo e Leônidas e tentava acalmar Baldo enquanto tentava ajuda-lo a levantar. Até que a juíza irritou-se e mandou que todos calassem a boca ou seriam presos.
- Ah, mas vá pá putaqueopariu.
Amanda não sabia se ria ou se fingia indignação. Aleexandre sentia uma familiar taquicardia, aquilo não podia estar acontecendo. Muito embora a confusão tivesse sido vergonhosa e poderia coloca-lo em risco, agora tinha ali, seu cliente, mandando que a juíza fosse pra puta que pariu. Quis abrir um buraco na terra e ir parar no Japão.
Depois de um silêncio de 2 segundos, que pareceram duas horas:
- MEIRINHO! PRENDA ESSE HOMEM POR DESACATO! – gritou a juíza Ivone, que além de tudo também encontrava-se agora discutindo com Baldo e Leônidas. O escrivão olhava aquilo tudo e já não sabia mais o que deveria ou não colocar nos autos do processo.
Aleexandre entrou no meio do olho do furacão e tentou justificar a qualquer custo a ação de seu cliente. Pediu, argumentou e até implorou para que a juíza relevasse. Mas não teve jeito, estava decidida.
- Apoi, mas quem essa velha tá achando que é, pae? – a juíza arregalou os olhos e dessa vez ela mesma perdera a compostura e estava indo pra cima de Baldo. Aleexandre na boa vontade de ajudar tentou apartar os dois. Baldo continuava no chão, mas ameaçava levantar. Aleexandre colocou a mão uma mão no peito de Baldo, mas infelizmente a outra foi parar no peito da juíza.
Mais dois daqueles segundos eternos. Amanda definitivamente estava rindo, era impossível não fazê-lo. Entrara com uma causa perdida e agora mal sabia o que ia sair daquele furdunço. É claro que já estava há um bom tempo filmando a cena com seu celular. Quem na ordem ia acreditar naquilo? Ela que não ia perder a chance.
- MEIRINHO, PRENDA ESSE HOMEM POR DESACATO E ASSÉDIO.
O próprio meirinho não sabia mais quem deveria levar em detenção.
Numa cela provisória dentro de uma das salas do tribunal encontrava-se Baldo. A juíza sentenciara que ele embora tivesse ganhado o processo contra sua antiga empresa, deveria ser levado em detenção podendo ser liberado com fiança. Em sua mão usava  telefone concedido pelos oficiais da sala para que pudesse fazer sua ligação de lei. Naturalmente ligaria para o seu advogado, porém o mesmo encontrava-se preso numa cela do outro lado do recinto. Ligou para Sônia:
- Alô, “Sonha”? “Sonha”? Escuta é o Baldo... “Sonha” me escuta... Sim, eu ganhei o processo, mas escuta... Porra, mulé da peste, deixa eu falar. Eu ganhei o processo, mas acontece que fui preso, o preço da fiança é o nosso puxadinho “Sonha”. Aquele pulha do Leônidas me sacaneou de novo, agora tenho que esperar o safado chegar com o dinheiro da fiança, talvez eu até tenha que passar a noite...
- Alô, meu benzinho. Não, não... É que estou usando o telefone do tribunal. Sim. Por isso o número estranho. Não, não tô com problema no celular. Meu bem, escute... Sim, nós ganhamos a causa, Mas querida, ouça... Não, eu não sei se vou almoçar em casa. FERNANDA! Escute, houve um imprevisto terrível na audiência, estou preso e preciso que você venha ao tribunal pagar minha fiança e me buscar. FERNANDA! Só venha, te explico depois.
A essa hora a juíza Ivone já estava em seu apartamento, do jeito que o diabo gosta. Seminua em sua sala, Pavarotti dormia ao seu lado, um copo de Whisky na mão e Waldick Soriano comendo solto em “Vamos Gozar a Vida”.

[conto baseado em eventos reais]