segunda-feira, 26 de março de 2018

O AMOR DE TRANCA RUAS

              
José de Oliveira, conhecido como Zé em todo vilarejo, era um homem de 44 anos e de estatura média, desgastado pelo tempo que se passou rápido demais.... Teve uma vida muito agitada e sem qualquer estrutura familiar. Zé nunca soube o que realmente era uma mãe por ter sido criado pelo próprio vilarejo em que viveu desde que se conheceu por gente.
Nunca soube de seus pais biológicos e sobreviveu de trabalhos manuais forçados desde pequeno. Esteve pouco tempo na escola, mas sabia se resolver com todas as lições que a vida tinha a lhe passar.
Dona Maria era o nome da senhora que o acolheu quando ainda moleque, ela trabalhava em casa de madames famosas e de renome, mas a sua realidade era dura e muito diferente das casas que limpava. O que tinha para comer em casa quase não dava para o sustento, mas seu coração era enorme e ela sempre conseguia enxergar alguém numa situação pior e precisando de ajuda mais do que ela mesma.
Anos se passaram e Zé tornou-se homem feito duma natureza bruta e primária. Era muito mulherengo, sempre apelando aos seus charmes e, demasiadamente vaidoso, conseguia fácil, fácil uma mulher quando queria.
Numa outra ocasião, lá estava ele no bar da esquina, conversando com seus amigos, tirando uma com a cara de todos e sem largar a sua cervejinha, quando seus grandes olhos brilharam e pousaram como águia numa verdadeira deusa negra, linda que passou pela porta do bar, levando, não só o olhar de Zé, mas de todos que estivessem em seu caminho. Um pensamento, apenas, instalou-se na cabeça de Zé: ele tinha que jogar seu charme naquela linda dama! E não se contendo foi de encontro à moça:
– Olá, minha deusa africana – disse Zé em tom meloso e pidão, sentando ao lado da moça no balcão.
– Sim? Em que posso ajudar? – Retrucou a moça, ignorando a presença de Zé por completo.
– Como é sua graça, minha linda? – Zé mantinha os olhos fixos naquela que poderia ser sua presa.
– Camilla – a moça abriu um sorriso de canto.
– Lindo nome, minha moça.... Lindo nome! Mas... você não é daqui, mudou recentemente?
– É, mas olha, a história é bem complicada e estou aqui para construir uma nova vida. Isso é tudo.
– Tudo bem, tudo bem. Já não está mais aqui quem disse. Olhe, não quero que lembre de nada frustrante, minha linda...
– Desculpe, mas eu só quero deixar o passado onde ele pertence.
– Claro, eu te entendo. Mas não se preocupe, o Zé aqui, ao seu dispor, está aqui pra mudar o seu dia.
– Sim, obrigada por respeitar isso – Camilla esboçou um leve sorriso.
Após horas de conversa, ele a convidou para conhecer sua casa.
– Obrigada, mas hoje não poderei aceitar o convite. Hoje é...
Zé interrompeu a moça e agarrou-lhe o braço. Algumas poucas pessoas até olharam, mas logo voltam às suas conversas.
– Eu insisto, ó, minha deusa!
– Por favor, me solte! – Camilla tentava puxar seu braço para longe das mãos de Zé, mas sem sucesso.
– Ah, mas vamos pelo menos para um lugar mais reservado. Qual é? – Zé continuou segurando o braço de Camilla, com mais força.
– Já lhe disse que não – rosnou Camilla. – Agora, por favor, me solte!
– Meu docinho, eu preciso de você em minha vida – ao dizer isso, Zé estava com seus lábios quase colados nos ouvidos de Camilla.
No melhor que aprendeu a fazer numa situação dessas, Camilla, desesperada e assustada, arremessou sua mão na forma de um tapa, bem no meio do rosto daquele que a segurava. Quando percebeu que sua reação causara um choque bom o suficiente para que aquele homem largasse de seu braço, saiu correndo em direção à saída do bar.
Ainda tentando se recompor, Zé voltou a sentar em sua cadeira e pensou se podia fazer algo para conquistar tão linda dama. Mas como pode, alguém que não conheceu a simplicidade de um sentimento como o amor, que era Zé, compreender a melhor forma de conquistar a moça de seus pensamentos? Seus relacionamentos eram resumidos a rapidinhas em lugares sujos e noites de álcool e promiscuidade. Onde, neste meio, o amor poderia brotar?
Alguns dias se passaram e Zé ainda se perguntava do porquê tinha levado um tapa, sem nem ao menos ter conseguido um beijo daquela mulher. Para qualquer um aquilo poderia ser normal, mas não para ele, que sempre conseguiu as moças das quais ele disputava com os outros homens do bar. Era difícil aceitar aquilo... O pensamento rondava sua mente e à medida que mais dias passaram, o que era uma ideia tornou-se obsessão.
Dois de fevereiro é um dia de celebração em homenagem à majestosa e divina Deusa do Mar, criatura do folclore do vilarejo e que representa um símbolo de força, justiça e prosperidade. Neste dia Zé decidiu ir à praia e contemplar sua magnitude e fazer algumas oferendas. Quando chegou, logo tirou as sandálias, colocou os pés na areia e se aproximou do mar, a brisa batia em seu rosto. Fechou os olhos por um instante e lembrou de quando era mais novo e do quão gostava de ir naquela praia para descansar seu corpo suado aos finais de semana junto de Dona Maria e seu finado marido, Joaquim.
Foi entrando na água, ultrapassou a margem de segurança. Deixou que a água chegasse quase a altura de seu peito e então entoou para a divindade marítima:
– Ó, minha mãe, espero que você consiga uma mulher pra mim, minha mãezinha. Eu tô cansado dessa minha vida sozinho e eu gostaria muito do amor daquela mulher do bar. Roga por mim, minha mãe, eu me apaixonei e não consigo enxergar a vida sem ela –  enquanto dizia isso, foi entregando alguns presentes e sacrifícios para a grande Deusa do Mar.
E, após deixar suas oferendas e voltar para a beira da praia, ele descansou numa pedra onde fazia uma grande sombra e caiu no sono.

Zé estava sentado, encostado na pedra, contemplando o mar quando ouviu uma serena canção vindo de uma mulher negra, muito alta e de lindos olhos claros. Achou que viu uma miragem num oásis. A mulher nem parecia que encostava no chão enquanto se movimentava e foi se aproximando mais e mais. Prestou mais atenção e a mulher vinha com uma mão estendida a ele, como se o quisesse puxar, foi chegando até que tocou a sua mão.
– Olhe só, mas tu não és mesmo um homem de sorte, meu amor? ­­­­­– Disse a linda mulher, já não mais tocava Zé, mas mantinha-se acima do chão na frente dele.
– Mas espere, é você mesmo? Eu sempre lhe trouxe oferendas, alimentando o que eu acreditei ser uma esperança falsa e solitária. E você... em todo este tempo, não posso crer, você nunca deu um sinal sequer de que estava aqui, minha deusa. – Acontece que o choque de Zé se dava ao fato de que a tal mulher era a Deusa do Mar. Aquela que, desde criança, Zé orava e pedia por proteção. Levava oferendas sempre que lhe sobrava algo.
– Sim, minha criança, sou eu. Mas te enganas no que dizes, pois sempre estive contigo. Fui ou não fui eu, aquela que sempre lhe ajudou a se safar pelos furtos do pão nosso de cada dia?
Neste instante Zé esqueceu que era já um homenzarrão, via-se como a criança desamparada e desolada de mais de 30 anos atrás.
– Não, eu nunca me esqueci, minha mãe... sempre agradeci, mas você poderia ao menos ter se mostrado a mim. – Zé falou com certo medo, mas também com muito respeito.
A Deusa do Mar riu, a sua risada pareceu provocar uma leve agitação no mar, uma brisa soprou mais forte lambendo o rosto de Zé e trazendo aquele famoso cheirinho de chuva. Era gostoso. A Deusa segurou mais uma vez na mão de Zé e depois a soltou.
Zé sentiu algo que não estava ali antes, então quando abriu sua mão viu um colar com um búzio no meio. Olhou um pouco confuso para a entidade que lhe sorriu e disse:
– Escute bem, jamais esqueças que estou com você. Leve isto pra onde fores e encontrarás teu amor, minha criança. Mas tome cuidado com o que pedes, pois podes não estar preparado para pagar o preço.

Zé abriu os olhos, estava encostado à sombra da pedra. Tomou seus sentidos e sentiu algo em sua mão esquerda. Lá estava o colar com o búzio, do mesmo jeito que a Deusa lhe dera. Ele então o pendurou em seu pescoço, beijou o búzio e agradeceu numa prece.
Passaram-se alguns meses desde o encontro divino e Zé sempre pedia que tudo ficasse bem, mas tudo parecia correr rápido demais e ele sem tempo para as respostas das perguntas que surgiam em sua mente. Até que decidiu dar um tempo a si mesmo, ele andava trabalhando feito um condenado e mal tinha tempo de ir ao bar beber com amigos e jogar conversa fora.
Então, numa noite de São João, 13 de junho, Zé estava perambulando pela rua, ainda sem um rumo. Todos do vilarejo estavam dançando e cantando ao som da música e ele só pensava em beber para esquecer um pouco dos problemas, andava distraído em meio a tanta festa, a cabeça não saia da bebida. Até que ele para de andar repentinamente e avista uma moça de cabelos crespos e bem negros, com argolas que brilhavam lindamente num dourado chamativo pendendo de suas pequenas orelhas, e que Zé olhava tão fixamente que podia jurar enxergar a alma da resplandecente moça. Seu batom era de um tom forte e provocativo, e deixava um ar de poder, de cobiça e que quem passasse por perto daquele anjo não desejaria mais nada, além de um beijo seu.
Zé saiu de sua hipnose momentânea e foi se aproximando da moça, ia cauteloso, com medo que aquela miragem desaparecesse, porém chegou perto o suficiente para reconhecer de quem se tratava.
– Você! – apontou Zé para a moça, o dedo parado no ar e o queixo caído.
Dito e feito! A moça também reconheceu Zé, espantada ela tentava fugir dali. E Zé ia atrás dela, não podia perder essa chance de se explicar, sabia que não teria uma outra oportunidade de se redimir por aquele dia no bar. Finalmente quando ele a alcançou:
– Tenho que ir, me desculpe. – Camilla disse isso já se afastando novamente de Zé.
– Minha moça, por favor, dê a esse pobre diabo a chance de se desculpar... Eu sou sozinho, não agi bem com você, tentei te conquistar, mas fui rude. Por favor, me dê uma chance.
– Homem, mas eu já lhe disse que eu não posso, pois tenho problemas com meu...
Ela foi interrompida com um beijo em sua boca, forçado, à princípio, mas logo relaxou após um afago em seu cabelo. Ele podia ser o cara mais cafajeste dali, mas ele sabia ser carinhoso.
– Mas eu sabia, sua vadia! – O beijo é partido ao ouvirem de longe uma voz rasgada seguida de um tiro no ar.
As pessoas começaram a correr e a se esconder, em pânico, elas gritavam e tentavam chorar sem fazer muito barulho para não chamar atenção de quem quer que tinha disparado aquele tiro.
– Eu te avisei. E agora ele está aqui! – Camilla, de anjo, virou fantasma de tão pálida.
– Quem está aqui, minha deusa? – quis saber Zé, ainda sem entender nada. Até que ouviu uma voz ribombar atrás de si.
– Então é com este imundo que você anda saindo, é vagabunda?! – Antônio, ex-marido de Camilla, surgiu com uma espingarda na mão.
– Não, não... por favor! Não é nada disso que você está pensando – suplicou Camilla já em lágrimas.
– Deixe a moça em paz, seu nojento! – Zé reuniu todas as suas forças e gritou para Antônio.
– Minha briga não é com você, não, cabra safado! – Antônio empurrou Zé para que pudesse chegar em Camilla.
– Por favor, nos deixe. Vá embora, me deixe resolver isso sozinha! – Camilla gritou isso para Zé, enquanto ia enfrentar Antônio. Mas não tinha choro e nem vela, Zé não ia arredar o pé dali e deixar sua dama sozinha com aquele monstrengo.
A gritaria ainda se ocorria entre o trio e entre as pessoas apavoradas. Socos e pontapés partiam para todos os lados. A coisa acontecia de tal forma que por momentos era difícil dizer quem era quem. Mas então houve um segundo tiro que trouxe fim ao embate.
Zé estava caído e ferido no chão, sangrava muito. Antônio empunhava sua espingarda, ainda saindo fumaça do cano. Que covardia!
Camilla correu ao ex-marido e mais uma vez tentou conversar com ele. Suplicou, chorou, até se ajoelhou, mas houve um berro. O berro do cano da espingarda de Antônio uma terceira vez. E Camilla também estava no chão, não protestou, o tiro havia sido em sua cabeça. Era o seu fim.
Todos no vilarejo sabiam que Antônio era um homem muito cruel e sem escrúpulos. Ele não era de lá, ia de passagem vez ou outra a serviço. Mas desta vez apareceu procurando sua esposa, que fugiu após uma briga em que lhe dera uma surra.
Camilla era muito esperta e não tinha ido à cidade para procurar homem, queria distância disso na verdade. Teve um azar danado ao encontrar Zé, um homem que não teve amor em sua vida, sozinho e que apesar do mau começo, fez de tudo para ficar com ela. Ele não tinha tato, suas palavras e gestos eram rudes, mas Camilla, quando o beijou sentiu-se amada e protegida.
Antônio contemplava a cena. Respirava forte, alguns cortes em seu rosto mostravam que Zé e Camilla tinham lutado com unhas e dentes para se defender. Quando teve um lampejo do que tinha feito, saiu fugido dali o mais rápido que pôde.
Em meio a tanta escuridão e quietude depois da briga, Zé recobrou os sentidos e gritou por horas a fio pedindo ajuda, mas sem nenhuma resposta. Não se conformava que ninguém tinha ido ali nem que fosse só de curiosidade. Após cansar-se, ele apenas se deitou e esperou acontecer um milagre. Não enxergava o corpo de Camilla naquele breu. Ele mais uma vez era aquele garotinho se escondendo do dono da padaria, depois de ter roubado um pão para não morrer de fome. Ele estava assustado, enfiado num buraco escuro qualquer, rezando para que alguém lhe ajudasse, mas igual àqueles tempos, nada aconteceu. Pelo menos não de imediato. Descansou um pouco e recobrou seu fôlego e voltou a gritar por ajuda, chamou até sua garganta doer e quase ficar sem voz, finalmente escutou uma voz de longe, calma e serena:
– Está pronta, minha criança? Eu vim buscá-lo!
– Quem está aí? – Perguntou Zé, cujo a vista estava embaçada.
– Ora minha criança, mas não me reconheces, novamente?
– Desculpe, mas estou ferido e cansado, minha visão me impede de reconhecer alguém – sabia que não podia ser Camilla, pois em meio a sua dor a viu morrer. Ele sem poder fazer nada, lágrimas desciam de seus olhos enquanto assistiu Antônio fugir.
De súbito era como se alguém estivesse tapando os olhos de Zé e então tirasse as mãos, pois um clarão de luz veio eliminando toda escuridão. Ele pisca algumas vezes, recobrando totalmente a sua visão e tentando achar o corpo de Camilla. Ele então a vê e ela estava linda, num belo vestido azul que parecia que ela tinha trazido o mar para a terra firme. Era uma visão realmente esplêndida.  
– Ó, minha mãe! Obrigado por não me abandonar! – Gritou Zé, com lágrimas nos olhos e se arrastando aos pés da Deusa do Mar.
– Estive de olho em ti e parece que não andaste sendo um homem muito bom, não é mesmo? –  mesmo passando um corretivo, a Deusa do Mar não perdia sua serenidade e graça.
– Eu juro que tentei, minha mãe! Mas tudo o que faço parece dar errado! – Zé tentou agarrar-se nas barras do vestido da Deusa, mas foi como tentar segurar água.
– Agora o que está feito não pode ser desfeito. E para tudo há um preço, minha criança. Eu te alertei da outra vez e vim para leva-lo ao seu destino.
Chamas brotaram do chão, serpenteando até chegar a Zé. As chamas lhe alcançaram e engoliram até que ele ficasse completamente em chamas, deixando apenas os ossos e sua carne torrada no chão.
Enquanto as chamas agiam, ele se contorceu, tremeu, uivou e babou, como qualquer pessoa em chamas teria feito por causa da dor. Mas dor não havia ali. A dor é uma característica dos vivos e Zé já estava morto há algumas horas. Ele demorou um pouco, mas se deu conta disso. As chamas cessaram e ele levantou do chão deixando ali a sua carcaça, ficou perplexo e encarou seu corpo dizimado pelas chamas, quando terminou encarou a Deusa do Mar.
– Teu trabalho agora é nas trevas. Terás que proteger todos os seus afilhados e irás cortar todo o mal pela raiz. Aqui estão seu tridente, sua cartola e sua vestimenta – a Deusa do Mar materializou tudo isso e entregou a Zé, que quando tomou em mãos, num piscar de olhos estava vestido e de tridente na mão. – Daqui pra frente serás conhecido como Tranca Ruas das Almas. Já pode ir.
A Deusa do Mar desapareceu e no instante seguinte chamas brotaram mais uma vez do chão, mas desta vez elas não queimaram, elas o chamaram. E ele as abraçou como uma velha amiga.



História original:  História Ilustrada "O Amor de Tranca Ruas" de Teo Santos. (Link para a HQ em breve).
Ilustração de Teo Santos.
Conto escrito, editado e revisado por Júnior Cassis, baseado na HQ "O Amor de Tranca Ruas"

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Galhada Sobrenatural

Ivonilde era uma cartomante de araque. Desde pequena aprendera com sua mãe a aplicar pequenos golpes em nome do sobrenatural para a sua sobrevivência. Ainda criança já sabia dizer o que o coração de um adulto desejava ouvir. Aprendeu as previsibilidades e macetes que faziam com que todos caíssem em seu papo espiritual.
Quando era adolescente sua mãe a levava para o centro da cidade, fantasiada de cigana. Instruiu que a filha treinasse o sotaque paraguaio mais fajuto que pôde, pois isso passava certa credibilidade. Alguém que mora numa mesma cidade que você, talvez só de te olhar, saiba que você é um pobre, ferrado da vida. Mas alguém de fora conferia um ar de mistério, pois como poderia aquela estrangeira saber tanto sobre a sua vida?
E assim Ivonilde ia levando a vida, de golpe em golpe. Era verdade que muito embora não tivesse ido muito longe com os estudos e muito menos ambicionara fazer qualquer faculdade, gostava muito do assunto. Estudava o significado das cartas. Estudou desde os experimentos das antigas mesas giratórias, muito famosas. Estudou sobre tabuleiros ouija. E ficava atenta para qualquer novidade que pudesse surgir. Decidiu que a sua faculdade seria a vida, a própria e a alheia.
Ivonilde se pegou tendo esses devaneios e lembranças que a fizeram chegar onde estava hoje. Desde seus vinte e poucos anos passou a atender como Madame Petra Cassandra. Com o dinheirinho que juntou ao longo do tempo, até conseguiu alugar um espacinho no centro da cidade e fazer uma casa esotérica.
Fazia desde velas paraa banhos, chás, que chamava de poções, simpatias e patuás e, claro, oferecia seu atendimento às pobres e desesperadas almas que vinham ao seu socorro. Não havia meios que Madame Petra Cassandra não conhecesse para contatar o outro lado. Búzios, tarot cigano, tarot celta, bolas de cristal, leituras de mão, borras do café e do chá entre muitas outras mais. Aquilo tornara-se um jogo para ela. Sabia todos os significados possíveis para combinações de símbolos.
Quando completou 30 anos, já tinha certa estabilidade financeira. Esse campo do esoterismo rendia um vida sem luxo, porém confortável a Ivonilde. Ah, como gostaria que sua mãezinha estivesse viva para vê-la agora.
Num belo dia, quando o movimento da loja estava bem pequeno, estava muito entediada. Resolveu tirar a própria sorte. Eram raros tais momentos, pois apesar do respeito que tinha pelas forças sobrenaturais, nunca fora uma porta-voz oficial, sabia que o que fazia era, no fundo, pura engambelação. Viu em seu destino um futuro bastante próspero, uma herança talvez, uma tia distante deixando uma pequena fortuna, ou mesmo quem sabe ganhar na loteria. Riu de si mesma e riu pelas circunstâncias. Desde a morte de sua mãe ela era sozinha no mundo. O que a levou à próxima carta: a promessa de um grande amor em sua vida. Um homem alto, moreno, forte, protetor. Até sentiu o coração acelerar, mas sentiu vergonha de si mesma por cair em seu próprio truque.
Dali dezoito anos Ivonilde estava completando 12 anos de casada. Mas ao invés de seu príncipe chegar num cavalo branco, parece que veio num jegue mesmo. Barroco, ruim com ele e pior sem. Ivonilde conheceu José Luiz 'Barroco” Esteves na região de sua loja. Alguns meses depois que tinha virado as cartas para si mesma, Barroco chegara ao bairro com suas obras de santos, anjos, Jesus, Marias, entre outras imagens adoradas. Ganhou o apelido de Barroco por conta de seu estilo artístico, obras tão feias e deformadas quanto as do próprio período barroco. Era tudo tenebroso. Mas ele em si tinha um charme inegável, parecia conhecer muito sobre artes, ser muito culto e inclusive saber muito sobre a vida num geral.
Ah, pobre Ivonilde, se ao menos suas cartas a houvessem alertado, ela jamais teria deixado se levar.
Barroco foi fazer um reconhecimento de território quando entrou na loja da grande Madame Petra Cassandra. Quis fazer uma consulta, alegava estar passando por muita dor, devido ao recente falecimento de sua esposa. Tudo teatro, que Ivonilde comprou ingresso e reassistiu até conhecer amargamente aos bastidores.
Barroco, o que dizer daquele encanto de pessoa que fora um dia? Hoje estava mais para maldição. Ivonilde levava uma vida boa até conhecer o traste, mas agora já estava na metade de sua vida e o que poderia fazer? Comercialmente juntos conseguiam ter uma vida boa, mas o problema não era esse. O problema estava no casamento. Se é que se podia chamar aquilo de casamento.
Barroco não passava de um galinha, que gastava boa parte de seu dinheiro e às vezes até mesmo o de Ivonilde, com bebidas, jogos e outras mulheres e quem sabe com mais o quê. Ivonilde achou que já era bastante calejada quando conheceu Barroco, é claro que ele era um homem de bem, pensou ela à época. Mas a vida sempre nos espera com surpresas.
As brigas do casal tornaram-se homéricas e muito conhecidas no bairro. Era um tal de maldição disso pra cá e um tal de tá amarrado pra lá.
Ivonilde jogava sua maldição, Barroco se brindava com sua religiosidade, deixando tudo nas mãos do Divino, dizendo que a esposa queimaria no inferno.
Dona Clotilde, uma senhora já aposentada, de língua afiada e olhos biônicos e um ouvido que era capaz até de ouvir apito de cachorro, sempre se divertia muito com as brigas dos dois. Era assunto que rendia em suas reuniões com as outras amigas aposentadas durante o cházinho da tarde.
Quando Dona Clotilde começava com seu habitual: “Menina...”, todos já sabiam o que vinha pela frente e ficavam em polvorosa em saber o que a D. Clotilde chamava de novidades, mas é mais conhecido como fofoca.
Num certo dia D. Clotilde iria receber suas amigas em casa para mostrar seus novos trabalhos em patchwork. A ideia era chamar as amigas, conversar um pouco e tentar empurrar algum de seus trabalhos goela a baixo das colegas. Vendia suas peças caríssimas a custo de uma pose de vítima que sempre se encontrava. Era sozinha, o marido já havia morrido, mas mesmo vivo nunca prestara para muito. Agora ela tinha que dar um jeito de se virar e as amigas sempre acabavam comprando alguma coisa, não porque gostavam, mas D. Clotilde considerava quase como ofensa pessoal se você fosse em sua casa e ela lhe mostrasse algo e você não comprasse.
Foi nessa tarde que Lourdes, uma das amigas de Clotilde, olhava os trabalhos da amiga sem muito interesse. Parecia abatida e distante.
- Que é isso Lourdes? Não vai prestar atenção, flor?
Lourdes acordou de seu estupor, pediu desculpas e se concentrou para tentar manter sua atenção, mas era notável sua dificuldade. Quando a reunião chegara ao fim Clotilde chamou Lourdes de lado e pediu que ficasse mais um pouco. Embora Clotilde tivesse um interesse muito específico nessas reuniões, ela também se preocupava com as amigas e Lourdes, tadinha, não parecia nada bem.
Era sabido de todas ali na roda de amigas que a filha de Lourdes recentemente ficara viúva. O marido era taxista e se envolvera num acidente de trânsito que levou à sua morte. Todas as “meninas”, Clotilde inclusive, se preocuparam. Pois Matilde, a filha, ficara viúva aos 40 anos de idade e com duas crianças para criar. Matilde fazia o que podia, era professora estadual, além de ter uma rotina dura, não ganhava muito. E Lourdes estava fazendo o que estava ao seu alcance para ajudar, mas via que a filha tinha mudado, estava obscura. Chorava todas as noites pelo marido. Era muito desesperador.
- Como você está indo, menina? Como tá a Tildinha? - perguntou Clotilde.
- Ah, Clô, sabe como é, né? Estamos tentando levar da melhor forma possível, mas estou tão preocupada com a Tilda. Ela não anda muito bem do juízo e estou tentando dar uma força com as crianças, mas eu também não tenho o mesmo pique de antes. Foi um choque para todos nós e eu não consigo imaginar pelo quê ela esteja passando. - disse Lourdes com lágrimas aos olhos.
- Calma, minha amiga, com o tempo as coisas se acertam. Ainda é tudo muito recente e vocês têm sido maravilhosos, todos vocês. Sabe que pode contar comigo, não é? Eu não tenho muito a oferecer, mas sempre tenho um ombro amigo e uma boa xícara de chá. - este comentário fez a amiga dar um sorrisinho de gratidão.
- Sabe, Clô, eu estava pensando aqui. Você acha as histórias sobre aquela Ivonilde verdadeiras?
- Olha, sei sim que ela me parece um ser desfrutável, mas não sei se todas aquelas histórias que o Luis fala são verdade e...
- Não, Clô. Sobre ela ser cartomante. Conseguir conversar com aqueles que já fizeram a passagem.
- Lourdes, minha querida, você não pode estar falando sério, está?
- Eu não sei mais a que recorrer, sei que pode parecer bobagem, mas acho que isso poderia ajudar a Tilda.
- Eu não sei, não Lurdinha, isso não me cheira bem. Ainda mais com a Ivonilde. Madame Petra Cassandra. Rá! Me engana que eu gosto.
- Ai, Clô... - Lourdes não conseguiu terminar a frase, pois pegou no choro. Clotilde não sabia como agir. A vontade da amiga era, no mínimo, inusitada. Evangélica de carteirinha, nunca vira Lourdes se dar a essas coisas. Mas a dor é algo que muda a gente, Clotilde sabia disso e respeitava a dor da amiga.
- Lurdinha! Ei, Lurdinha, olhe aqui! Eu penso que devemos fazer de tudo para vermos o bem daqueles que amamos e, bem, se você acha que isso possa trazer paz à sua família, faça! Eu te passo o endereço da loja daquela... - Clotilde achou melhor se interromper. Não era hora de minar com as esperanças da amiga.
Lourdes ficara extremamente grata a Clotilde. Sabia da desaprovação da amiga em relação a Ivonilde, mas mal aquilo não poderia causar.
E assim foi. Lourdes conversou com a filha, que rejeitou a ideia. Ficou enfurecida. A mãe estava ficando louca, desde quando acreditava nessas histórias de araque? Falar com os mortos. Aquilo era maluquice, heresia! A mãe disse que só queria ajudar e por isso pensou na ideia. Rubens partira muito repentinamente, não houvera tempo para despedida, talvez isso trouxesse um pouco de paz e encerramento para Tilda. Mas a filha não mostrava nenhum sinal de ceder. Até que finalmente foi vencida pelo cansaço. Ela também não aguentava mais tanto pesar e concordou com a mãe em dar UMA CHANCE, uma única chance. Uau, aquilo realmente alegrara Lourdes.
Combinaram de ir num sábado, já estava tudo combinado até com Clotilde que ficaria de olho nas crianças para que elas pudessem ir.
Pegaram o metrô em direção ao centro da cidade, a loja ficava bem próxima à estação que precisariam descer. Tilda estava muito nervosa e ansiosa. Achava aquilo uma bobagem, mas ter de lidar com a situação não era fácil. Repreendia-se cada momento em que se permitia ter uma ponta de esperança que ia conseguir falar com o falecido.
Chegaram à loja e não tiveram dificuldade em identificar, já que D. Clotilde dera bastante detalhes. Logo avistaram a Loja do Barroco e quase em frente a casa esotérica de Madame Petra Cassandra. Entraram na loja seguidas de um “prililim” do sininho da porta. Mal terminaram de entrar e foram acolhidas por uma nuvem de fumaça e logo ouviram música, se tratava de Além do Olhar de Ivo Pessoa. Madame Petra Cassandra fazia uma entrada triunfal no recinto.
- Sechan befindas filhas do destch... - nessa hora em que Madame abria os olhos para fitar aqueles que chegavam à loja ela parou de falar. - Ah, são só vocês!
Ivonilde desceu do trono que era movimentado a controle remoto e foi desligar a máquina de fumaça e a música.
- Olhem, se vieram aqui por causa dos boatos daquela velha da Clotilde, sugiro que deem meia-volta e sumam. - Ivonilde começou a arrumar algumas coisas nas prateleiras, dando as costas às duas, deixando visível somente seu turbante e as costas de sua capa escarlate.
- Viu, mãe, eu falei pra senhora que isso era uma má ideia! Vamos embora logo daqui.
- Não! - protestou Lourdes. Até Ivonilde virara para ver o acontecimento. - Não vamos a lugar nenhum Tilda, não até você conversar com a Ivonil... - Ivonilde deu uma tosse proposital. - …com a Madame Petra Cassandra.
- Ora, ora! Vejam só, o que posso fazer por vocês duas?
- É a minha filha, Madame Petra. Perdeu o marido há alguns meses. Estamos sofrendo muito e não sabemos mais o que fazer. Viemos até você para que pudéssemos tentar conversar com o Rubens, saber se ele está bem.
Madame Petra Cassandra ficou fitando a dupla por alguns instantes, ponderando se valeria o esforço ajudar ou não. Pensou por bons instantes, até que seu coração de manteiga falara mais alto. Ela se sentiu culpada, pois daria o recado padrão daqueles que já faleceram. Mas conhecia aquelas pessoas, era sempre mais difícil com as pessoas conhecidas.
- Está bem. Podem se consultar comigo, mas é melhor que vocês duas se comportem. Energia negativa espanta os cosmos. Preciso de uma energia bem fluída para estabelecer uma conexão com o outro lado. Por favor, me acompanhem.
Madame Petra levou mãe e filha para uma salinha nos fundos da loja e pediu para que Jéssyca, sua assistente, cuidasse da loja enquanto prestava sua consultoria.
Nos fundos da loja aparecia uma sala, coberta por panos roxos com detalhes em amarelo. Um forte cheiro de incenso e xerez no ar. Era bastante enjoativo. Almofadas ficavam espalhadas por todo o lugar junto a tapetes de imitação persa. Lourdes e Matilda olhavam aquilo com grande desconfiança, mas já que estavam na chuva, agora era pra se molhar.
- Sentem-se aqui e me aguardem por uns instantes. Peço que enquanto me preparo não fiquem de braços e pernas cruzadas, isso corta a energia. E mentalizem aquele com quem querem conversar. Voltarei em alguns minutos. - Lourdes deu um grande cutucão na filha que tinha uma carranca no rosto. Madame Petra teve de virar logo para não a virem rindo.
Enquanto deixava as duas aguardando, Madame Petra foi tirar sua longa capa, naquela sala podia ficar muito abafado, e foi dar uma repassada no roteiro que há muito tempo tinha escrito. Com perguntas e respostas mais ou menos padronizadas. É claro que tinha bastante improviso, mas ele só se tornava consistente devido ao roteiro. Ivonilda então colocou uma música ambiente que fazia lembrar algo bem cigano.
Quando voltou deixara somente o turbante e as roupas esvoaçantes que já usava normalmente. Veio dando um clima, cheios de Aumnnns e Aooons. Lourdes e Matilda olhavam aquilo com bastante estranheza. Ivonilde resolveu elevar a coisa, como não poderia usar seu sotaque falso para impressionar pensou em outro recurso bastante comum. Resolveu falar em línguas:
- Azaraban guaraguetinguetá charaban xatá catamaraticona. Shimbalaie, quando vejo o sol beijando o mar. Shimbalaie, toda vez que ele vai repousar.
- Ela tá cantando música da Maria Gadú, mãe. - sibilou Tilda para mãe.
- Cala a boa e deixa ela se concentrar, Matilda. - devolveu a mãe com outro cutucão na filha.
Madame Petra Cassandra veio rodopiando e fazendo gestos largos com os braços. Numa das mãos carregava uma bola de crital. Assim que se sentou à mesa repousou a bola de cristal num suporte ao centro da mesa.
- Aumnnnnnn... - continuou Madame Petra. - Espíritos, energias que nos rondam. Estou aqui com Lourdes e Matilda. Alguém do outro lado deseja se comunicar com elas? Oh, Cosmos! Venha até mim! Fale comigo! Me use como seu instrumento, fale através de mim.
Até aí tudo normal para Ivonilde, tudo parte de seu ato. Tirando o fato de que desta vez ela realmente estava sentindo muito calor, mesmo tendo removido a capa. Era aquele turbante maldito, precisava encontrar um look mais leve para poder fazer suas sessões, já estava com seus 50 anos. Não tinha mais idade para passar tanto calor, ainda mais com a menopausa batendo à porta. Fora que sempre sofrera de pressão baixa, e já chegou a desmaiar algumas vezes. Será que era isso? Estava passando mal de calor? Não sabia ao certo, mas sentia a cabeça pesada. As pálpebras cada vez mais difíceis de se manterem abertas. Ela ia desmaiar. Estava pronta para colocar fim ao seu discurso e pedir por ajuda, quando tudo ficou preto de repente.
Quando recobrou os sentidos e começou acordar do seu estupor viu que ainda estava sentada à mesa com Lourdes e Matilda. Ambas a olhavam com cara de espanto absoluto. Ivonilde já estava preparada pro que ia vir. Droga, pisara na bola com seu ato. Fora traída por sua condição. Mais um assunto praquelas velhas fofoqueiras do bairro se deleitarem.
- Olhem, me desculpem, isso não acontece normalmente. Talvez possamos recomeçar... - Ivonilde fora interrompida pelo choro de Matilda. Olhou para Lourdes que ainda a fitava com tremendo espanto.
Lourdes mal conseguia falar, balbuciou sobre quanto seria a consulta. Madame Petra dissera o valor, mas estava pronta para dar uma boa explicação, mas não deu nem tempo disso. Lourdes praticamente arremessara o dinheiro para Ivonilde e saiu correndo de lá com a filha.
Ivonilde estava muito confusa, acabara de acordar de um desmaio e estava sem entender nada. Chamou por Jéssyca.
Logo uma menina de cabelo roxo e cheia de espinhas e espinhos no rosto apareceu:
- Madame Petra, aquilo foi do balacobaco. A senhora está cada dia melhor. Como fez tudo aquilo acontecer? Olha! Olha isso, eu tô toda arrepiada! Menina do céu.
Ivonilde olhava para a menina sem entender. Já achava ela meio maluquinha, mas tinha o coração no lugar, mas agora achava que a menina tinha enlouquecido de vez. Mas mesmo assim resolveu perguntar:
- Do que você está falando Jéssyca? Pode me explicar? Eu estava pronta para colocar o roteiro em ação com aquelas duas, quando tive uma crise de pressão baixa e desmaiei. Quando acordo, não basta a cara de espanto delas e você ainda me vem com essa conversa. Ficaram todos loucos? - Madame Petra fora buscar um pouco de água e Jéssyca veio atrás.
- Você não pode estar falando sério! Não se lembra de nada o que aconteceu?
- Lembrar do quê criatura de oxalá? Dá pra falar na mesma língua que eu, o português? Tá pior do que eu inventando aquelas palavras.
- Eu. Não. Acredito. Sério, não consigo acreditar que a senhora não se lembra de nada.
A essa altura Ivonilde começava a perder paciência e já estava bufando.
- Ok! Ok! Eu conto tudo o que aconteceu, mas você vai ter que me dizer como fez isso depois. Quando a senhora foi lá para os fundos com as duas, eu fiquei aqui na frente como sempre. Escutei a senhora colocando a música e falando em línguas, como de costume. Depois do nada, as luzes começaram a ir e voltar, tudo tremia. Corri para os fundos para ver o que estava acontecendo. A senhora estava flutuando, eu disse FLUTUANDO do chão, coisa de 4 cm. E falava com uma voz grossa, muito grossa. Tipo de homem mesmo, e no ar subiu um cheiro muito forte de Musk, o mesmo perfume que meu pai gosta de usar. A tal da Matilda ficou catatônica, quem falou tudo foi a mãe. Ela quem conversou com você, ou melhor, o Rubens, né? O marido falecido da moça.
Parecia que alguém tinha batido com um porrete em Ivonilde. Do que aquela menina estava falando? Realmente ficara louca de vez, desde quando na vida inteira de Ivonilde ela fizera qualquer contato real com o lado de lá, se é que ele existe? Mas ela de fato se sentia estranha, sentia uma sensação gostosa, de prazer e de fato sentia o perfume de Musk que Jéssyca comentara. Mas não, aquilo não podia ser. Ainda achava que estavam todos malucos. Neste dia resolveu fechar a loja mais cedo, dispensou Jéssyca e foi para casa descansar.
Chegando em casa começou a preparar o jantar, o ogro do Barroco logo ia estar em casa, e ela não queria encheção de saco pro lado dela. Ia fazer um qualquer coisa pra janta, pois ela estava totalmente sem apetite e depois iria pra cama deitar. Deixou o jantar pronto, tomou um banho e deitou na cama. Estava se sentindo exausta, mas ao mesmo tempo sentia um comichão por dentro, algo que não sentia há muito tempo. Ela não sabia bem explicar, só sabia que era gostoso. Pegou no sono e começou a sonhar. Sonhou com um homem bonito, jovem porém já com certa idade. Ele sorria pra ela. Ela sorria de volta. Mesmo próximo ele parecia tão distante. Parecia já conhecê-lo de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde. Então um sentimento ruim tomou conta de Ivonilde no sonho, estavam levando ele embora! Ela não entendia porquê e nem pra onde. Mas começou a gritar, pedindo que ele não se fosse. Mas ela estava presa num clichê onírico, não conseguia correr e sua voz parecia estar presa na garganta. Acordou com o marido gritando de volta:
- IR PRA ONDE NILDE? EU NÃO VOU PRA LUGAR NENHUM, HOJE É DOMINGO. VOCÊ SABE QUE NÃO ABRO A LOJA AOS DOMINGOS!
Traste inútil, pensou Ivonilde. Até parece que o objeto de seu desacalanto seria seu marido! Rá!
O domingo voou. Ivonilde passou o dia todo com a cabeça nas nuvens. Nem as provocações habituais do marido foram capazes de tirá-la de seu pensamento. Tudo que conseguia era pensar no homem do sonho e tentava lembrar de onde o conhecia.
A segunda-feira chegou num galope. Ivonilde chegou na loja e já a encontrou aberta. Jéssyca chegara cedo naquela manhã. Ótimo. Nem bem entrou na loja e Jéssyca já colou na grade. Disse que a mulher do falecido estava novamente na loja e estava esperando nos fundos para conversar com Ivonilde. Ah, que droga, mas o que será agora? Estava de cabeça cheia, poderia usar uma segunda tranquila. Foi até seu camarim, trocou rapidamente de roupa e foi ao encontro de Matilde, dessa vez desacompanhada.
- Bom dia! Não está um pouco cedo pra...
- Madame Petra! Desculpe vir assim tão cedo. Mas... Mas eu precisava vir aqui mais uma vez. Eu não sei... Eu não consigo pensar por onde começar. Mas quero me desculpar por ter duvidado de seus poderes. Meu Rubens! Meu Rubinho, eu nunca... Oh! Jamais pensaria que escutaria sua voz novamente. E naquele dia... Fantástico. Por favor, faça novamente, eu imploro. Eu pago a mais! O dobro! O triplo se for necessário! Mas por favor, traga meu Rubens para conversar comigo de novo.
Mas agora Ivonilde estava numa boca de sinuca. O que ela ia fazer? Nem sabia o que tinha acontecido da primeira vez, e se dessa vez, seja lá o que tivesse feito, o que diria caso falhasse? Estava começando a recusar a proposta, dizendo que aquele dia o Cósmos não se mostrava muito auspicioso. Mas Matilda insistiu muito. Disse que não deixaria o lugar enquanto não falasse com seu Rubens. Ivonilde estava sem paciência mas não gostava de destratar ninguém. Então disse que tinha avisado, o Cósmos não estava receptivo, então se nada acontecesse, seria devido a isso. Ótima desculpa que arranjara. Matilda concordara com os termos, mesmo de pagar a consulta mesmo nada acontecendo.
Então lá foi Madame Petra, mais uma vez com seu teatrinho. Novamente, sentia-se estranha. Mas com certeza fora por conta do que já estava sentindo. Quando sentou à mesa, junto de Matilde, e colocou a bola de cristal no suporte. Puft. Apagara novamente. Dessa vez quando despertou, sentiu-se presa. Quando deu por si, Matilda a agarrava, beijando seu rosto e repetia sem parar: Oh Rubens! Meu Rubinho é mesmo você.
- Aaaaah! - gritou Ivonilde.
- Aaaaah! - gritou Matilda em resposta, largando Ivonilde, que quase levou um tombo.
- Mas eu posso saber o que você pensa que estava fazendo? Isso é assédio, viu minha senhora.
- Mil perdões, mas eu não consegui resistir. Estou tão envergonhada. É que por um momento eu o vi, meu querido Rubens. - Matilda vasculhou a bolsa e tirou de dentro uma foto da família de quando Rubens ainda era vivo. Aquele cheiro de Musk perpetuando no ar.
Ivonilde precisou buscar por seus óculos para poder ver melhor. Quando os colocou, quase caiu dura pra trás. Mas, não podia ser. Será? Não, isso só podia ser a merda de uma brincadeira de mau gosto. Rubens, o homem da foto. Falecido de Matilda. Encarando Ivonilde naquela foto, não... Sim, era ele, o mesmo homem de seu sonho. O mesmo homem com quem sonhara acordada o dia inteiro. Ela se arrepiou toda. Dessa vez quem ficou perplexa foi Ivonilde. Dispensou o mais depressa que pôde Matilda. E ficou um tempo no espaço do fundo, refletindo.
O que estava acontecendo? Nunca antes na sua vida sequer sonhara com nada paranormal, de tão acostumada que estava com a rotina. E era tão certa de que não existia nada do outro lado. Só podia estar ficando maluca de vez. A mãe morrera cedo, talvez estivesse chegando a hora de Ivonilde também. Mas o que explicava aquela sensação boa? Começou então a rezar, muito embora trabalhasse com todas as bandeiras, sua crença torta ainda era no catolicismo. E foi pra Deus que ela rezou.
Ficou mais um tempo na sala e então teve uma ideia:
- Ei! Xiiiu! Vem aqui! Psiiiu! Apareça para mim espírito. Não vou machucar você! Ei, não me ignore não. Trate já de...
- Madame Petra?
- Aaaaaaah!
- Aaaaaaah! - gritou Jéssyca em resposta.
- Xacatanã bacantá! Menina, vai assustar a senhora sua mãe. Eu tenho coração fraco, não posso ficar levando esses sustos assim.
- Desculpe Madame, mas é que ouvi a senhora conversando sozinha e tem um cliente aqui na loja perguntando da senhora. E bem...
- Mas quem disse que eu estava falando sozinha? Vá, me deixe. Diga que eu já irei. Agora vai, chispa!
Jéssyca sumiu nas cortinas roxas. Madame olhou em volta e pensou: Vai pensando que vai me deixar falando sozinha, mas não vai mesmo!
Deixou o recinto e foi encontrar com o cliente que a esperava, o atendeu o mais rápido possível. Ela queria mesmo é ficar sozinha na sala para poder fazer seus experimentos.
Dispensou Jéssyca, que relutou muito em ir embora.
- Ah, mas agora que as coisas estão ficando legais é que eu tenho que ir?
Que grude essa menina, senhor! Mas conseguira fazê-la ir embora pra casa. Quando ficou sozinha na loja, trancou a porta da frente e foi correndo para a sala dos fundos.
Colocou música e tentou dançar. Falou em línguas. Tentou se hipnotizar. Jogou cartas, búzios, bebeu quase uma garrafa inteira de café para ler as borras. E nada. O que estava faltando? Ora, não podia ser tão complicado assim... Ela precisava entender o que estava acontecendo. Precisava constatar se era verdade. Tinha que ser. Aquele cheiro de Musk no ar e a sensação de se sentir... preenchida. Sim, essa era a palavra. Sentiu-se preenchida quando recebeu Rubens em seu corpo. Uau. Aquilo era gostoso, se não viciante. Precisava daquele sentimento de novo. Pensou, pensou e teve uma ideia.
Entrou em contato com Dona Clotilde, dizendo que tinha uma mensagem urgente de Rubens para Matilda. Como não tinha seu contato, pediu que Dona Clotilde desse o recado de que Matilda aparecesse o quanto antes, e com uma foto de Rubens, somente de Rubens, até sua loja.
E assim foi feito. Na semana seguinte Matilda estava na loja. Ainda sentia-se um pouco envergonhada pela última vez, mas diante de um pedido desses, onde seu marido deixara um recado pra ela, não poderia negar. Foi à loja de foto na mão e pediu por Madame Petra. Madame cumprimentou Matilda como se fossem grandes amigas, era só sorrisos. E não deixou de reparar na foto na mão de Matilda, Rubens estava de morrer. Ai que pecado, pensou, ele já estava morto. Mentalizou suas mais sinceras desculpas dando uma rápida olhada em direção ao céu.
- E então, Madame. Que recado urgente é esse que Rubens deixou para mim? - Matilda parecia menos abatida, estava até mais coradinha. Estava muito animada, pois o marido a chamara. O que é uma dimensão quando se trata do amor verdadeiro?
- Ééé... Sabe o que é... - droga, Ivonilde não pensara direito. Estava com a cabeça nas nuvens ultimamente. Só conseguia pensar em Rubens, sonhar com Rubens, desejar Rubens preenchendo-a de novo e de novo e de novo. - Veja bem... Eu não consegui captar a mensagem muito bem. Sabe como é, já te falei que essa coisa de Cósmos é muito de lua. E bem, o que eu entendi é que Rubens gostaria de se comunicar melhor com sua família. E ele me instruiu que com uma foto sua... Digo, dele... Aqui, talvez isso ajudasse melhor na conexão do mundo de cá com o mundo de lá e talvez ele conseguisse entrar em contato mais vezes.
Matilda ficou radiante. É claro, mas é claro que sim! Quantas fotos Madame Petra quisesse. Contanto que ouvisse mais e mais sobre seu Rubens. Por sua vez Madame Petra ficou aliviada, essa tinha sido por pouco. Achou que não ia colar, mas ela duvidara de si mesma e de sua persuasão. Era muito fácil enganar as pessoas, muito embora dessa vez, ela não estivesse enganando ninguém, não por completo. De fato sentia a presença de Rubens, mas só quando Matilda estava lá. Mas Madame tinha pensado numa solução, talvez uma foto do falecido conseguisse criar uma conexão forte o suficiente para que ela pudesse chamar Rubens quando estivesse sozinha.
Não demorou muito e logo arranjou para que ficasse sozinha na loja com a foto de Rubens, deu uma desculpa qualquer a Jéssyca e fechou a loja.
Quando na sala dos fundos, deixou a foto de Rubens sobre a mesinha onde se sentaria e começou o ritual, como faria para um cliente que estivesse ali. Colocou música, dançou, girou, mas dessa vez fez exatamente aquilo que estava faltando, colocou um pouco do seu coração nisso. Antes que pudesse chegar à mesa, caiu no chão. Quando pareceu acordar não estava na sala, e sim num lugar branco, enevoado e vazio. Ficou muito confusa. Levantou-se e começou a perambular o espaço, até que ouviu atrás de si:
- Ivonilde?!
Mas seria possível? Virou rapidamente, tão rápido que atacou sua labirintite e quase caiu, mas teria valido a pena, só para que ela pudesse estar com ele, dessa vez, falando com ele. Ela não sabia por onde começar, fez as perguntas mais básicas “Aquilo era real?”, “Ele estava realmente ali?, “ Como aquilo era possível?”. Ela parecia uma criança no natal, encantada com toda aquela energia mágica. Esclareceu todas as suas dúvidas e mais um pouco com Rubens. O cheiro de Musk era altamente intenso onde se encontravam. Ivonilde, você está ferrada!, pensou. Apaixonada por um espírito! Mas que absurdo e ao mesmo tempo tão irônico. O homem de seus sonhos, de fato ficaria somente em seus sonhos, mas isso não quer dizer que de alguma forma Ivonilde não poderia viver aquilo.
Além de uma questão muito básica entre dimensões, havia um outro problema. Mesmo morto, ela estava apaixonada pelo marido de outra mulher. E de uma mulher que contava com Ivonilde como sua confidente. Mas que situação.
Rubens não podia ficar muito mais, então todo aquele ambiente fora dissolvido e Ivonilde retornara a sua realidade. Extasiada.
Passava dias e noites pensando em Rubens. Sua presença era tão forte pra ela, que passou a sentir e cheirar a Musk. De noite entre sussurros chamava por Rubens.
Já não ligava mais tanto para a casa e muito menos para Barroco, que por sinal estava começando a demonstrar fortes sinais de ciúme. Mas desde quando Ivonilde dera bola pra esses ataques de Barroco? Ele podia ficar com a primeira lambisgóia que aceitasse seu pincel já gasto. Enquanto Ivonilde estava vivendo um sonho. Quão poético.
Até que Ivonilde parou por um momento e se deu conta de algo. Matilda. Não dera notícias há algum tempo a ela. E por mais que se esforçasse para que Matilda não fosse mais a loja se consultar, começou a inventar recados de Rubens a ela. Matilda estava mais do que feliz, Lourdes, embora preocupada, só queria o bem da filha e ela nunca estivera tão bem desde a morte do marido.
Enquanto isso Ivonilde incorporava Rubens somente para ela. Somente para os seus caprichos. Barroco já comentara com uma ou duas pessoas, que passarem a ser 4 ou 5, 7 ou 8 até o boato cair nos ouvidos de Dona Clotilde de que Ivonilde estava traindo o marido, com um louro alto, mais jovem que ela.
Dona Clotilde começou a escutar as brigas de Barroco com Ivonilde, perguntando de quem era aquele perfume. Por que a esposa andava tão avoada? Só queria saber de ficar enfiada naquela loja, aquilo não era jeio de tratar o próprio marido.
Até que um dia Barroco resolveu ir na loja de Ivonilde numa hora que ela não estivesse lá. Encontrou com Jéssyca e disse que a esposa pedira que ele buscasse algo no salão dos fundos para ela. Jéssyca não viu nada demais, afinal de contas era Barroco, o marido da sua patroa. Ela que não ia recusar. Deixou que ele entrasse e ficasse à vontade. Precisando era só chamar.
Barroco então começou o trabalho investigativo. Procurou em cada cantinho, o lugar fedia àquela merda de Musk, que cheiro horrível. Até que finalmente, no fundo de uma gavetinha achou a foto de seu concorrente. No fim Dona Clotilde tinha razão, sua mulher era mesmo uma desfrutável. Ele era homem, tinha necessidades, mas quem Ivonilde pensava que era?
Decidiu que então contaria apenas para uma pessoa sobre a traição, e essa pessoa não era ninguém menos que D. Clotilde. Guardou a foto no bolso e foi embora.
- É isso mesmo que a senhora ouviu D. Clotilde, me traindo.
- Oh, é mesmo, querido? Conte-me mais. Aceita mais um pouco de chá? - mesmo antes da resposta foi servindo mais chá ao vizinho engalhado.
- Sim, e eu ainda consegui uma foto do crápula! - pegou no bolso. - Veja a senhora, com seus próprios olhos, o que eu achei na loja de Ivonilde.
D. Clotilde deixou o bule de chá despencar no colo de Barroco, tamanho era seu espanto.
- Puta que pariu!!!! Por acaso é Natal e eu não sabia? A senhora está tentando assar um peru, ou quê? Velha maluca. Também deve ter ficado caidinha pelo tal. Vocês mulheres são todas iguais... - Barroco saiu esbravejando da casa de D. Clotilde.
Passaram alguns minutos até que D. Clotilde pudesse agir novamente, mas a primeira coisa que pôde fazer, foi passar a mão no telefone e ligar para sua amiga:
- Louuuurdes, menina, espero que esteja sentada. Não sei nem por onde começar. - e contou tudo o que Barroco lhe falaou. Tim tim por tim tim. Lourdes estava em choque.
Pediu para que Clotilde repetisse pelo menos três vezes a história até que pudesse assimilar.
Lourdes, sem ação, só conseguiu fazer uma coisa. Passou a mão no telefone e ligou para a filha. Lourdes precisou repetir a história pelo menos 4 vezes para que Matilda pudesse assimilar.
O que estava acontecendo com o mundo? Se perguntavam Clotilde, Lourdes e Matilda. Como pode a pessoa trair alguém com um morto? Aquilo tudo só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto. Matilda ficou enraivecida. Correu o quanto mais rápido pôde para a loja de Barroco. Levou a foto que ele tinha deixado com D. Clotilde e mais a mesma foto que levara pela primeira vez a Ivonilde.
Precisou repetir pelo menos 5 vezes a história para que Barroco pudesse assimilar. Mas que palhaçada era essa? Agora Barroco, Clotilde, Lourdes e Matilda se perguntavam o que estava acontecendo com o mundo.
Matilda e Barroco não tiveram dúvida, queriam tirar essa história a limpo. Então planejaram aparecer de supetão e pegar Ivonilde com a boca na botija. Barroco jurava de morte aquele Ricardão do além. Não bastava estar sendo chifrado, mas tinha uma galhada sobrenatural. Matilda também estava espumando de raiva, querendo quebrar a cara de Ivonilde e de Rubens, que Deus o tenha, se ainda estivesse aqui.
Quer dizer que ela chorando pelo marido e ele curtindo com outra lá do além? Tinha que ser taxista, flertava com o primeiro rabo saia que pintava na frente. E agora quem embarcara no táxi fantasmagórico de Rubens tinha sido Ivonilde. Que raiva!
Planejaram que iam abafar a história para não dar bandeira. Até D. Clotilde concordou com o voto de silêncio, contanto que pudesse ir junto com os dois. Lourdes que era a mãe, não gostou de ser deixada de fora, então exigiu ir junto também. E assim, numa tarde de terça-feira os quatro combinaram de ir até a loja da Madame Petra Cassandra de araque.
Quando Jéssyca vira os quatro dentro da loja sabia que não ia sair boa coisa dali, tentou disfarçar dizendo que Madame Petra não estava, mas não houve jeito. Os quatro marcharam para dentro do quarto dos fundos.
Foi quando então encontraram Petra, ou melhor Ivonilde, levitando a alguns centímetros do chão, um sorriso bobo no rosto. Falava ela e também fazia as vezes de Rubens.
- Mas o que está acontecendo aqui? - perguntaram os quatro em uníssono. Jéssyca veio correndo atrás e só deu tempo de ver sua patroa caindo estatelada no chão.
Ivonilde fora pega em flagrante, mas com quem? Com o que? Fazendo o quê? Barroco queria quebrar a cara inexistente de Rubens, enquanto Lourdes e Clotilde seguravam Matilda, que queria dar na cara de Ivonilde.
A situação não tinha uma resolução simples, afinal, quando foi que alguém traiu o marido com uma pessoa póstuma?
Quando caíram em si, viram que não havia o que ser feito, pelo menos em parte. Matilda e Lourdes nunca mais quiseram falar sobre Rubens ou sobre qualquer coisa sobrenatural. Dedicaram-se fervorosamente ao evangelismo e na expurgação de práticas iguais as de Ivonilde.
Barroco pediu o divórcio, coisa que Ivonilde ficou mais que aliviada. Barroco tentou, mas nenhum advogado considerou o caso processar a esposa por traição, ainda mais sendo o ocorrido com um espírito. Ele foi obrigado a aceitar o acordo, onde perdeu quase tudo, que aliás, já nem era dele.
E Ivonilde? Bem, ela continua com seus esquemas, é claro. Mas está feliz e muito bem conectada com Rubens. Tantas pessoas namoram pela internet, tem relacionamentos à distância, eles estavam se esforçando para que as coisas dessem certo. E ela estava feliz, do jeito que nenhum homem vivo foi capaz de fazê-la sentir. E sabia que um dia iria chegar a hora que ela e seu amado poderiam estar juntos por toda a eternidade.