quarta-feira, 13 de julho de 2016

Contos Inacabados: O Projeto X


O dia começou calmo na Cidade Maravilhosa. Eram 6h e já se podia ver movimento nas praias. O Sol apareceu com toda a sua exuberância e deixava aos poucos o dia mais claro e mais colorido.
                Alguns saiam de suas casas para trabalhar, outros faziam caminhadas. Os mais afortunados tomavam café da manhã em  seus terraços e contemplavam a linda praia de Copacabana.
                É apenas mais um dia normal no Rio de Janeiro. Ou era para ser apenas mais um dia normal.
                Antes que se pudesse dar conta a cidade já estava de pé, pessoas andando para lá e para cá. Pais e Mães deixando seus filhos nas escolas e correndo para seus trabalhos. Eram tempos difíceis.
                Carla estava no caminho da escola com seu filho Júlio, enquanto o filho estava ouvindo música em seus fones, Carla alternava seu olhar entre seu telefone com a sua agenda e o trânsito.
- Puta que pariu! Mal começou o dia e já temos esse engarrafamento. – esbravejou Carla para ninguém em particular.
                O filho apenas lhe deu um olhar pelo canto e voltou a mexer no celular, alternando entre todas as suas redes sociais.
                O trânsito seguiu mais um pouco adiante e Carla estava muito agitada, até que entrou numa rua para poder desviar um pouco de todo o congestionamento.
                Finalmente chegaram à escola.
- Ei, não vá saindo assim não, cadê o meu beijo? – Júlio já estava para fechar a porta do carro quando a mãe cobrou a atenção do filho que, revirando os olhos, voltou para dentro do carro e deu um beijo com má vontade no rosto da mãe.
                Júlio estava para sair novamente do carro, porém congelou. Na verdade todos à volta ficaram perplexos quando uma sombra começou a sobrevoar o céu da cidade.
                Todos agora pararam o que estavam fazendo e olhavam sem acreditar para o céu, alguns choravam, outros entraram em desespero. Carla não podia acreditar, mas sabia o que aquilo significava. Não era possível.
                Nesse momento naves sobrevoavam o céu da cidade. Grandes naves esféricas, negras como o piche, com cúpulas redondas e círculos verde limão que serviam para o controle de entrada e saída de ar.
                Enquanto centenas dessas naves sobrevoavam o céu Carla teve apenas um impulso: mandou que o filho fechasse a porta do carro e saiu arrancando.
- Não, não! QUE MERDA! Eles não podem fazer isso com a gente! ELES PROMETERAM! Prometeram que iriam nos dar mais tempo! – Carla guiava o carro como se estivesse numa corrida, e talvez estivesse.
- Mãe, que porra é essa? O que tá acontecendo? – Júlio estava confuso e assustado, nunca antes havia visto a mãe assim. Sabia que por conta de seu trabalho sua mãe sempre estava sob constante pressão e estresse, mas Júlio conseguia ver o pânico no rosto de Carla.
                Carla continuou olhando vidrada para frente enquanto pegava a estrada para sair da cidade. Precisava alcançar a Fronteira o mais rápido possível.
                Infelizmente muitos tiveram a mesma ideia. As Fronteiras eram grandes muros de aço que dividiam um Estado do outro, isolando-os e deixando-os quase sem contato. Poucos podiam atravessar esses muros, apenas aqueles que trabalhavam para o governo.
                Conseguir uma passagem para outro Estado era extremamente raro e apenas em ocasiões muito específicas, alguns duvidavam até de que isso pudesse realmente existir, pois viveram toda uma vida e nunca conheceram alguém que sequer tivesse chegado perto das Fronteiras.
                Essa medida foi necessária após a Grande Depressão, como era chamado o evento que destruiu o mundo como conhecemos.
Carla tentou se aproximar o mais quanto mais pôde da Fronteira que dividia Rio de Janeiro e São Paulo. Júlio saindo de um transe volta a gritar para mãe:
- MÃE, POR FAVOR, O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – mas a mãe estava em seu próprio transe, na verdade estava presa em seu pior pesadelo.
                Carla chegou a um ponto onde não era mais possível seguir de carro, apesar do céu enegrecido com as naves ainda era possível enxergar através dos faróis dos carros abandonados. Carla tirou o cinto e gritou para que seu filho corresse junto a ela.
                Multidões tentavam fazer o mesmo que Carla, desesperados.
                Durante o caminho encontraram diversas pessoas que se machucaram tentando chegar à Fronteira, a cidade gritava por misericórdia, mas Carla não, ela sabia que teria uma chance. Afinal ela trabalhava para o Governo, “A porra do Governo que se dizia tão justo, tão preocupado, e agora estava fazendo isso com todos.”, pensava ela.
                Júlio já não estava conseguindo correr tão bem quanto começara, seu peito doía e sentia fortes ânsias, precisou parar para respirar.
- JÚLIO! Não, não, por favor, não pare de correr, precisamos chegar à Fronteira. – Carla olhou para seu filho e por um momento não viu o adolescente que já não conversava mais com ela, não viu o adolescente que sentia vergonha de dar um beijo na mãe, não. Viu um Júlio criança, que fazia desenhos para que a sua mãe pudesse colocar na geladeira. Viu seu garotinho. Carla não pensou duas vezes, pegou o filho no colo e continuou a correr.
                Passavam por pessoas implorando por ajuda, desviavam de obstáculos no caminho deixados por outras pessoas, enfrentavam o forte calor que agora se fazia, devido ao abafamento causado pelas naves.
                A Fronteira estava perto, era só isso o que ela conseguia pensar! Iriam fugir, poderiam trocar de nomes, identidades. Carla poderia arranjar até um emprego simples e continuarem com as suas vidas. Havia esperança de um amanhã melhor, ou pelo menos de um amanhã.
                A Fronteira estava apenas a alguns metros agora, porém algo estava errado. Algo estava muito errado.  A multidão que então corria para alcançar a Fronteira parecia apenas se conglomerar ao redor dela. Carla não podia entender o que estava acontecendo.
                Quando chegou perto o suficiente pôde então notar o motivo de ninguém ir adiante. Um grande abismo que antes era uma estrada dividia a população e a Fronteira.
                Pessoas gritavam e se lamuriavam, mas nada do que pudessem fazer iria fazer com que eles conseguissem chegar ao outro lado. Pais e seus filhos, idosos, crianças, deficientes, podia-se encontrar todo o tipo de pessoa à margem do abismo.
                Alguns casais mais velhos se juntaram e faziam uma espécie de cerimônia, uma despedida. Talvez um agradecimento por terem chegado tão longe em suas vidas, por terem tido a oportunidade de poderem viver tanto e aproveitar suas vidas. Aos poucos, um por um, foram se jogando da margem do abismo e adentrando a escuridão para o desconhecido. Para outro lado.
                O grito da multidão foi interrompido por alarmes e luzes vermelhas que piscavam e viam das naves paradas no céu.
                As partes de baixo das grandes bolas pretas se abriram e inúmeros canos saiam de lá, canos grossos e que se espalhavam por todos os cantos. Nesse momento pareciam grandes polvos gigantes, e que ironia, era assim que Carla e seus colegas costumavam chamar as naves de exterminação.
                Carla olhava fixamente para as naves, enquanto abraçava seu filho que chorava e soluçava. E só teve tempo de gritar:
- Eu te amo, filho! Me desculpe. – os alarmes cessaram e por algum momento todos tiveram uma ponta de esperança.
                O hino nacional agora ressoava, bradando em todas as direções, enquanto uma fumaça preta tomava conta de toda a cidade.
                Carla se agarrou ao filho enquanto a fumaça ia grudando em seus corpos. Uma vez que a fumaça atingia a pele fiava grudada, como uma gosma, impossível de ser removida. Quanto mais se tentava tirar, parecia que melhor adesão tinha a gosma preta.
                Era para ter sido apenas mais um dia tranquilo na Cidade Maravilhosa, era. Mas agora ela estava oficialmente eliminada do projeto.


                O Rio de Janeiro já não fazia mais parte do mapa. 

[conto a ser finalizado]


[ou não]

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