quarta-feira, 15 de junho de 2016

Rapsódia Matinal

 O despertador tocou pela manhã. Despertei num susto, abri os olhos e vi que era de manhã. Enquanto o alarme soava insistentemente entrei num conflito interno entre levantar da cama de imediato ou coloca-lo no modo soneca.

                Como pessoa responsável eu sabia bem dos meus horários e optei por colocar mais 15 minutos de soneca, ah, que se foda. Ninguém tem a ver com isso, pensei.

                Mais uma vez toca o despertador, abro os olhos mais uma vez e penso em dar o cano no trabalho. Ah, que bom seria poder ficar dormindo o dia inteiro. Mas o dever chama.

                Levantei da cama com uma espreguiçadela e com uma leve coceira na nádega esquerda.

Puta que pariu, que frio.

Mais que depressa fui ao banheiro e comecei a me despir das vestes noturnas. Abri o chuveiro e ali, como uma criança espera pela manhã de Natal, eu esperei que o chuveiro esquentasse. Tremendo de frio entrei e senti a água quentinha descer pelo corpo. Mas com um preço, é claro, apenas metade do corpo por vez, afinal para que o chuveiro pudesse aquecer de forma agradável eu não poderia abrir muito o registro.

Como ia bem um Coroninha, pensei. Mas era o que tinha pra hoje e se for parar para pensar nem era tão ruim assim.

Iniciei o meu banho e com ele o meu tímido repertório de músicas, eu até poderia estar recebendo qualquer tipo de prêmio ou até me imaginar num talk show, mas aquela manhã eu acordara inspirado.

Tasquei xampu na mão, apenas uma moedinha, eu aprendera, e comecei a ensaboar as melenas ao mesmo passo que entoava as melhores canções de Reginaldo Rossi. Um grande cantor de nossa sociedade, de um trabalho atemporal, cantei as mágoas de um compadre e sua desilusão amorosa a mesa de um bar.

Tenho o costume peculiar de preferir o enxague apenas quanto termino de ensaboar todo o corpo. E assim o fiz. Cantando alegremente e passei ao enxágue. Um frio na espinha me acometeu, quando de fato caiu a ficha percebi não ser um frio na espinha, mas nas costas mesmo, a água descia fria como o coração de uma velha solteirona. Maldição! E essa agora?

-Mãe. – clamei por socorro. – Mãe, o chuveiro queimou.

Nada.

Em meio aquele frio, metade do corpo ainda ensaboado, ainda não tinha repassado a cabeça, chorei de tristeza.

Percebi então um cilho caído e nesse momento pensei que a minha salvação havia chegado. Peguei o cilho com a pontinha do dedo e fiz um pedido, como diz a lenda. Para o meu desespero nada aconteceu, pois aquilo não se passava de um pelo caído do nariz. Tristeza.

Eu não sei quanto tempo se passou, mas eu me encolhi em minha vergonha e meu fracasso. De meus olhos escorriam lágrimas, nem tanto pelo fato do ocorrido, mas o xampu começava a escorrer para dentro de meus olhos.

Era isso. O fim.

Ao longe eu ouvia algumas batidas na porta.

PÁ. PÁ. PÁ.

Eu estava fraco e derrotado demais para ligar.

PÁ. PÁ. PÁ. 

De novo.

Vão embora! Me deixem em paz seus crápulas. Não vêm um homem abatido? Não podem sentir compaixão para que o deixem definhar com o mínimo de sua dignidade?

Não.

A porta então se abriu e junto com ela uma lufada de vento que arrepiou cabelinhos de onde o sol não bate.

- O que você tá fazendo deitado ai? – perguntou uma senhora de voz familiar.

- Ajuda. – pedi.

- Que?

- Preciso de socorro. – desta vez implorei.

- Do que você tá falando? Olha, a energia voltou. Acho bom você terminar logo esse banho senão você vai se atrasar mais ainda para o trabalho.

Aquela mulher falava de uma realidade da qual talvez eu pertencesse e fizesse parte.

Ainda de olhos fechados ouvi o girar agudo, como guinchos de ratinhos, do registro do banheiro. Uma água morna batia em minha face e comecei a recobrar consciência.

Aos poucos fui reunindo forças e consegui me levantar e me apoiar nas paredes, embora o esforço.
Consegui realizar a minha missão. Finalizado o banho puxei a toalha e senti sua maciez contra a minha pele. Vitória.

Enquanto me secava senti um urro vindo de dentro pra fora. Esperei.

Novamente veio o urro e dessa vez a coisa veio com raiva, como um soco no meu estômago. Recebi aquilo como uma afronta, escárnio se vocês preferirem.

Era óbvio que o meu próprio corpo tentava me pregar uma peça. Logo após o meu banho recebi um chamado da natureza.

Mas aquele era o menor dos obstáculos, depois de minha jornada o que não nos mata, nos fortalece. Encarei o inimigo. E me posicionei na cerâmica de assento gélido.

Após alguns minutos tateei em busca do rolo de papel higiênico.

Não consegui encontra-lo por meio do toque, então fui obrigado a me virar para olhar onde estaria. Para o meu espanto encontrei apenas um rolo meio despido, com apenas um filete de papel para presenciar a minha desgraça.

- Mãe. – clamei novamente. Orei para que ela me ouvisse. – Mãe, você pode trazer papel higiênico?

Nada.


Oh, pai. Por que me abandonaste?

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