quinta-feira, 2 de junho de 2016

O dia que eu conheci o Twitter

Estava andando sem rumo, estava ainda um pouco confuso e meio cambaleante, pois tinha voltado de uma festa na noite anterior com pessoas mascaradas que entoavam gritos, que pareciam ser de ódio! As pessoas estavam em polvorosa por alguém que havia roubado as roupas intimas de alguém para fazer um pano de prato. Até agora não sei como cheguei lá e mistério ainda maior é como eu saíra.

Rumava em direção à minha casa, como diz a molecada: estava pegando o caminho da roça. No metrô percebi uma certa agitação e por um instante fiquei com medo de ser aquela gente achando que eu que roubara a peça, mas felizmente não se tratava disso.

As pessoas olhavam pelas janelas enquanto luzes piscavam e o vagão ribombava em barulhos metálicos.

Não demorou muito para que entre os clarões aparecessem passarinhos azuis piando e pode até ser imaginação, de novo, me perdoem, eu estava um pouco confuso, mas eu via Jogos da Velha e Arrobas voando e passando por corações.

Não me segurei mais e cheguei a um senhor que admirava tudo aquilo:

- Oi, por favor. Esse trem ainda tá indo sentido Jabaquara, né?

Nada.

- Moço! Oi, desculpa! Mas o trem tá indo pro Jabaquara? – dessa vez cutuquei o braço do senhor.

- Qualé a tua, ô meu?

- Jabaquara!

Antes que o senhor pudesse dizer qualquer coisa a voz no microfone ecoou dentro do vagão “Próxima parada (next station) Twitter. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.”

Eu não tinha entendido muito bem o que dissera a voz, mas como eu nunca entendo apenas assumi que ainda estava sob efeito do álcool e voltei ao meu lugar. O trem finalmente mostrava sinais de que iria parar e começávamos a chegar à plataforma.

O trem então parou e começaram a descer todos os passageiros, decidi que não iria ficar parado ali e desci também. Logo reconheci que aquele não poderia ser o Jabaquara, nem tanto pelo lugar em si, mas pela falta que senti do agradável som de pessoas bradando “Praia, praia, praia. Litoral.”, do cheiro de colônia Musk e pelo pitoresco estilo clássico-vitoriano da renomada marca Oakley.

Não senhor, aquele definitivamente não era o Jabaquara. Parecia mais o Umbral.

Pessoas reclamavam de fome e sono, andavam como mortos-vivos para lá e para cá. Até pareciam bastante comigo, mas a minha dor de cabeça não estava me deixando pensar direito naquela altura do campeonato.

E falando em campeonato, no meio de tantas pessoas vi uma que se destacava, mas ele tinha um grande círculo azul com um sinal no meio, quando me aproximei vi que ele lembrava um famoso comentarista esportivo que vivia chamando nossa atenção para um lance.

Como todos pareciam inteirados de algo que eu ainda não fazia ideia eu não podia mostrar que eu era um estranho ali, precisaria me misturar:

- E aí meu chapa, qual é a jogada? – Sucesso.

Ao mesmo passo que este gritou para mim:

- ESTOU INDO PRA TRANSA ATÉ+

E como o coelho branco da Alice, atrasado para o chá, ele saiu correndo passando pela multidão. Eu saí correndo atrás dele, óbvio.

Passando pelas pessoas esbarrei em outra figura, dessa vez de uma senhora míope, que se eu não me engano era uma cantora que a minha mãe adorava, mas no meio da confusão só pude perguntar:

- Por favor, você sabe para onde vai aquele senhor? – Tentei apontar, mas ele já tinha sumido.

- OIEEEEEE.....TO COM ( FOME)...NUNCA SEI A HORA CERTA D COMER...TO COM FOME....TO COM FOME E TO COM FOMEEEEE.

- Eu sei! Aqui todo mundo só parece ter fome e sono, mas por favor, me ajude. Estou cansado de correr, tenho sede e preciso achar aquele senhor que passou correndo por aqui.

- GALERINHA...Q CALOR É ESTE?? DEUS MEU ME DERRETO EM BARRAS D GELO...SE EU FOSSE UM PICOLE ..ESTARIA HOJE NA BOCA D TDS...RSRSRRSRS CREDOOOOO

Percebendo aquilo como uma tentativa malsucedida de fazer contato resolvi ignorar a senhora e sair correndo atrás do senhor.

Agora estava mais difícil, pois eu o perdera de vista. Mas eu sabia que ele era o único que poderia me ajudar, então persisti.

Passei por pessoas que se aproximavam de você e davam um caloroso “Oi”, mas a conversa nunca evoluía mais do que isso.

Até encontrei com um Comprade, mas quando falei com ele, me respondeu:

- Gente só entre pra. Da um oi agora vou dormir amanha cedo

De novo.

Me escorei no cais de um porto e fiquei admirando, por um instante, a paisagem, na minha cabeça tudo parecia um breu. Enquanto olhava para o mar de longe vi uma baleia sendo carregada pelos mesmos passarinhos que eu vira e logo eu sabia que algo estava errado.

Meu Compadre havia me alcançado, chegou a mim e disse:

- Gente nao foi dessa vez

Estava pronto para concordar, mas apenas suspirei. Já quase desistia quando de longe vi a esperança voltar. O senhor passara correndo e entrara numa casa.

Infelizmente fui obrigado a deixar meu compadre para trás, afinal de contas, farinha pouca, o meu pirão primeiro. Eu precisava sair daquele lugar.

Como num pesadelo em que as nossas pernas falham e não conseguimos mais correr, tentava chegar na casa, porém quanto mais eu corria, mais distante a casa parecia.

Enquanto isso algumas pessoas gritavam: Twitter, o melhor lugar!

Tudo aquilo parecia um rito estranho! Mas a minha persistência era maior. Eis que uma Rainha veio em minha defesa, assim como Gandalf defendeu os seus de Balrog na ponte, sem cajado, mas com um disco voador ela veio ao meu resgate e me estendeu a mão enquanto disse aos outros:

- fui vcs não merecem falar comigo nem com meu anjo

Ela me levou em sua nave e então a casa realmente começava a ficar mais próxima. Quando chegamos ela me disse palavras que jamais esquecerei:

- Estão me chamando e preciso voltar pra gravação. A gente se fala amanhã! Adorei isso aqui!!!

E num piscar de olhos eu estava de frente pra casa.

Fiquei olhando por alguns segundos, buscando uma coragem em meu âmago, eu estava me sentindo estranho (mais tarde soube distinguir que era a fome de que tantos comentavam), mas tomei a coragem e fui.

Assim que passei da porta, ela se fechou atrás de mim. De repente eu estava no meio de uma sala, cheia de espelhos direcionados a mim. Eu era... infinito.

Fiquei alguns segundos parado, até que eu ouvi atrás de mim:

- Oi!

Virei, e apenas meu reflexo.

- Gente, que fome! – ouvi alguém gritar, com uma voz familiar. Virei, de novo, só o meu reflexo.

Macacos me mordam, o que estava acontecendo?

Quando bem na minha frente meu reflexo começa a se movimentar. Mesmo eu estando parado no mesmo lugar, então eu digo (ou melhor, meu reflexo diz):

- Alô Twitter, bom dia! Só passando pra desejar um ótimo dia!

Confusão.

Agora do meu lado:

- Não consigo dormir. Boa noite.

Atrás:

- Um vício: azeitona preta

De repente todos começam a falar:

- Estou de bom humor! Repassem!
-Geente, e amanhã ainda só é quarta... Chega logo minhas férias.
- Que friozinho é esse? Vou dormir, boa noite!
- Quero comer frango.

Aquilo era insuportável. Me encolhi e deitei no chão enquanto tapava os meus ouvidos.

Tudo parecia rodar e girar. E rodar e girar. As vozes ficavam mais e mais altas.

Mas lá longe eu podia ouvir uma outra voz, achei que eram as trombetas divinas que haviam chegado para me levar para a casa nova. Ainda não conseguia ouvir bem, mas parecia um chamado, talvez?

Mais alto...

- ...ssss ...C ...L...r ...ssa...

Minha mente trabalhava para decifrar aquilo. Seria uma mensagem criptografada?

- Sssai... Com... Vem...

Então num choque, abri os olhos e finalmente ouvi:

- SAI DA PORRA DESSE COMPUTADOR E VEM LAVAR A LOUÇA!

E assim amigos, voltei para casa.

Não sei se tudo se passou de um sonho, mas espero um dia poder me aventurar nessa terra de novo.

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