terça-feira, 31 de maio de 2016

DIY feat. Obra do Tinhoso

Em uma tarde de domingo vocês sabem que a cabeça da gente vira passarela do Diabo. Não muito diferente de nossos antepassados, estava deitado na cama assistindo vídeos do YouTube.

Que maravilha o YouTube, uma imensidão de cultura! Fiz acesso à página principal e resolvi dar uma olhada naquela seção de vídeos sugeridos, aquela seção que parece entregador de panfleto na rua, que a gente passa correndo sem dirigir o olhar.

Inocentemente percorri o olhar para saber o leque de opções que o YouTube me reservara.

Mal sabia eu que aquela seria o início de um fatídico dia! Oh, se eu soubesse os horrores que me aguardariam nas horas que viriam, jamais teria assistido aquele vídeo demoníaco.

A sugestão mais aprumada me parecia ser um vídeo chamado DIY (Monte Você Mesmo). No vídeo uma jovem senhorita, não mais que seus 17 anos, idade à flor da pele! Ah sim, me lembro dos meus tempos de jovem. Época magnífica onde eu escalava o pé de laranja do vizinho para conseguir um sinal de celular.

No vídeo de hoje ela ensinaria outras meninas da mesma idade e simpatizantes da arte clássica-barroca como fazer um abajour (popularmente chamado abajur) à partir de uma garrafa de vidro.

Maravilhado ainda era pouco para descrever a sensação que senti. No vídeo ela usava uma garrafa de uma bebida desenvolvida por um andarilho chamado Johnny. Após consumido o conteúdo etílico seria possível realizar a façanha.

Com alguns poucos materiais e uma inspiração de Macgyver ela então transformou aquele vasilhame em um lindo abajour (...jur, se preferir).

Não me contive e assisti mais algumas vezes ao vídeo, convencido de que aquilo era realmente fácil de fazer. Mas assim é o Diabo, meus camaradas. De palavra macia e arrebatadora. Por um momento baixei minha guarda em CristoTM e resolvi procurar materiais semelhantes para poder fazer tal arranjo.

Saí como um desesperado casa a fora procurando tais materiais, como se estivesse numa cruzada que já foi muito repercutida em âmbito nacional comandada pelo Oficial Gugu. Em minha mente ainda posso ouvir suas eternas palavras “Valendooo!”.

A começar pela garrafa, não pude encontrar algo tão parecido com o que o vídeo sugeria na geladeira. Só pudera encontrar latas de cerveja (leia cerva ou breja se você é jovem). Recorri ao armário e lá só pude encontrar vidros de azeite e Só Côco. A minha sana ficava cada vez maior, então resolvi recorrer ao armarinho de bebidas. Não encontrei nada muito vistoso, além de uns vidros dos malditos espumantes Cereser, me encarando ali como fantasmas de natais passados. Quase desistente remexi um pouco dentre as garrafas esquecidas e empoeiradas e pude encontrar o que poderia vir a se tornar a solução do problema: uma garrafa de pinga Cura Corno® que mamãe trouxera de uma de suas expedições ao Nordeste para papai.

Abracei a garrafa como quem vê um amigo de longa data. Mas ainda havia outro problema a busca de outros materiais.

Eram necessárias ferramentas, soquetes e interruptores, cabos, objetos de um dialeto estranho ao qual eu estava ainda tomando conhecimento.

Papai tem um grande armário, onde certa vez já achei, escondidas, algumas revistas de cunho nú artístico. Provavelmente papai as escondera de mamãe, pois ela sempre detestara arte barata, sempre preferiu decorar a casa com quadros que representavam a vida litorânea, quadros esses provindos de grandes artistas que trabalham apenas com materiais que a natureza dá.

No armário de papai encontrei um mundo de coisas, coisas que eu jamais poderia imaginar para quê serviriam, porém ali fui feliz por um instante, pois encontrara os materiais necessários para poder terminar o projeto do mal.

Fui ao meu laboratório, confesso que na verdade foi na mesa da cozinha, depois que tirei o descanso de mesa rendado e a flor plastificada de centro. Comecei a colocar em prática aquele plano maligno. Eu estava muito consumido, talvez até anjos tivessem sussurrado em meu ouvido para que eu abandonasse aquilo e fosse fazer uma cruzadinha da Letrão, mas não pude ouvi-los.

Terminada a criação ainda faltava o toque final: a cúpula do abajour (jur). Como eu poderia ter esquecido de tal coisa? A Desgraça se abateu sobre mim. Precisei recorrer à geladeira e abri sua porta para pensar assim como Dumbledore mergulhava sua cabeça na Penseira. Passei alguns segundos encarando uma garrafa meio vazia de coca e um queijo que já começava a exalar um cheiro incômodo e então me ocorreu ir à vizinha ver se por lá havia uma cúpula.

Ding dong Ding dong

- Dona Ana, sou eu. Seu vizinho!

Dona Ana, uma senhoura bojuda, de bochechas bem vermelhas e cabelo louro-abranqueado, veio em minha direção rebolando em suas tamancas.

- Menino?! Sua mãe está bem?

- Está sim D. Ana, sabe o que que é, eu estava pensando aqui e a senhora tem abajour?

- Quê?

- Abajour.

- Quê?

- É que eu estou precisando de uma cúpula de um abajour e queria saber se a senhora não poderia me ceder uma.

A confusão era clara no rosto de D. Ana, pensei E agora?

- Menino, o que você tá aprontando?

Não teve outro jeito, fui obrigado a mostrar o vídeo a D. Ana para que ela pudesse compartilhar de tão jubiloso trabalho! Só digo uma coisa, camaradas: Quando o Diabo quer, ele faz de tudo!

D. Ana pareceu muito satisfeita em me dizer que teria uma cúpula, mas me fez prometer que eu a devolveria depois.

Muito agradecido fui de volta a casa com uma cúpula rosa com detalhes de unicórnio da neta de D. Ana.

Finalmente voltei à minha criação e encaixei a cúpula. O tempo era perfeito, já que a noite já chegava. Olhei para minha criação assim como Dr. Frankenstein encarou sua criatura. Na base uma garrafa amarronzada de Cura Corno, cheia de fitas isolantes para esconder detalhes que não poderiam ser vistos e em cima, como uma cereja no bolo, a cúpula rosa de cavalos chifrados.

Levei o plug à tomada e seria só alegria! A vontade do Diabo estava era feita, isso sim.

Apertei o interruptor e POFT! POFT?

Um estampido surdo e... escuridão! O que dera errado?

Eu certamente não sei. Mas escrevo esta anedota em um pedaço de papel sobre à luz de um toco de vela da santinha que pude encontrar em cima da geladeira da cozinha.

Aguardo meus pais voltarem. Estou sozinho, preciso de ajuda e provisões.

Se você está lendo isso, peço que venha ao meu resgate e lhe rogo: Pelo amor de Deus, não faça você mesmo! Isso é pegadinha do Tinhoso!

Agradecemos a preferência.

- Texto transcrito do manuscrito em saco de pão da padaria


[ conto meramente fictício, ou quase]

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